Embora tenham o mesmo propósito de ensino, o processo de alfabetização de jovens e adultos difere do das crianças. Isso porque são duas realidades distintas que precisam de metodologias, técnicas e materiais diferentes para o cumprimento de seus objetivos. 

A alfabetização de jovens e adultos também tem como base as práticas de leitura e escrita usadas para as crianças da Educação Infantil e primeiras séries do Ensino Fundamental. No entanto, quando falamos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), nos referimos a um público que necessita de outras estratégias e particularidades. 

Ainda que o Ministério da Educação (MEC) disponibilize materiais para o Ensino de Jovens e Adultos, é comum que professores utilizem os livros infantis para tal feito. Em razão disso, há um enorme índice de adultos que não conseguem avançar em seus estudos e optam por deixar a escola, pois se desmotivam por se sentirem fora de sua realidade diária.

Neste artigo, discutiremos sobre a temática e as estratégias e particularidades da alfabetização de jovens e adultos. Acompanhe!

Particularidades da alfabetização de jovens e adultos

Entenda os desafios e particularidades da alfabetização de jovens e adultos.

O processo de alfabetização tem mais chances de sucesso quando aplicado conforme a realidade dos alunos. Neste contexto, tanto as crianças quanto os adultos aprendem melhor quando percebem que o ensino está diretamente associado ao seu cotidiano. Em outras palavras, ensinar os jovens e adultos por meio de brincadeiras lúdicas e frases infantis não é o caminho ideal.  

Paulo Freire (1921-1927), foi um defensor dessa lógica. Por intermédio do Método Paulo Freire, o educador brasileiro desenvolveu uma estratégia de ensino para adultos baseada nas experiências de vida desses alunos. Nesse sentido, ao invés de alfabetizar da forma tradicional, com cartilhas e frases como “o bebê baba”, ele usava “palavras geradoras”, isto é, que faziam parte da realidade do indivíduo. 

Assim, caso o aluno fosse um agricultor, ele era alfabetizado com palavras do seu dia a dia, como, por exemplo: “enxada”, “colheita”, “cana” e assim por diante. Desse modo, quando essas palavras eram aprendidas, novas eram inseridas, ampliando, gradativamente, o vocabulário dos estudantes. 

É importante destacar que o Método Paulo Freire não só trouxe bons resultados no passado, como ainda é aplicado em diversas instituições de ensino. Isso se deve ao fato de que a trajetória de vida, as necessidades e a visão dos alunos precisam ser consideradas para uma metodologia de ensino adequada. 

Desafios da alfabetização de jovens e adultos

Vale dizer que os alunos deixam a escola por diversas razões, como falta de recursos, demandas de trabalho, problemas financeiros e assim por diante. Em razão disso, é preciso entender e valorizar essas questões para que elas sejam o ponto de partida da construção do conhecimento. 

Em outras palavras, por se tratar de um grupo de pessoas tão distintas, a alfabetização de jovens e adultos deve ser pautada respeitando a particularidade de cada um. Nesse sentido, a escola não pode ofertar a esses alunos um ensino como o oferecido para crianças da mesma idade e com características mais homogêneas. 

Além disso, é fundamental refletir sobre a formação dos professores responsáveis pelo ensino desses estudantes, uma vez que eles precisam de capacitação específica para o público de jovens e adultos. É necessário haver espaços escolares que ofereçam formação continuada para discutir os métodos mais viáveis para a alfabetização de adultos. 

Estratégias para a alfabetização de adultos

Como já mencionado, os jovens e adultos não devem ser alfabetizados da mesma forma que as crianças. Sabendo disso, é necessário que os professores do EJA selecionem conteúdos que tenham a ver com a realidade desses estudantes. 

Nesse sentido, a alfabetização deve ocorrer por meio de materiais adequados para a faixa etária. Dentre os principais, podemos destacar:

  • músicas que fazem parte do cotidiano;
  • textos com histórias reais;
  • reportagens de jornais diários;
  • filmes atuais;
  • livros que abordam temas importantes.

O ideal é trabalhar com conteúdos que despertem a curiosidade dos alunos e façam parte da realidade de cada um. Neste cenário, ainda é possível usar uma notícia publicada em jornais ou revistas para promover debates a fim de enriquecer o repertório linguístico dos estudantes. 

A partir desses conteúdos, é possível trabalhar os três pilares gerais do processo de alfabetização:

Além disso, é importante entender que a rotina desse público envolve uma série de responsabilidades e atividades extraclasse. Assim, é necessário reconhecer e valorizar o esforço daquelas pessoas que se dispuseram a retornar aos bancos da escola para aprenderem a ler e a escrever.

Andragogia

Quando falamos da educação de jovens e adultos, é fundamental compreender o conceito de andragogia (do grego: andros – adulto e gogos – educar), é um caminho educacional que busca compreender o adulto.

De acordo com Malcolm Shepherd Knowles, um dos principais estudiosos do tema, a andragogia trabalha com base em cinco pilares:

  • Autonomia do estudante
  • Valorização da experiência prévia
  • Prontidão para a aprendizagem
  • Aplicação imediata da aprendizagem
  • Motivação para aprender

Nesse contexto, é preciso saber que, antes de tudo, esse público busca conhecimento prático que contribua para lidar com situações e problemas do seu dia a dia.  Por isso, é importante que eles tenham clareza no caminho pedagógico para que enxerguem o valor imediato do que estão aprendendo.

Dessa forma, o professor deve conversar constantemente com a classe, posicionando os objetivos de suas estratégias. É importante que os alunos entendam os motivos por trás das escolhas de atividades e dinâmicas e também quais são as metas pedagógicas que eles precisam alcançar. 

O diálogo é fundamental para um aprendizado acolhedor em qualquer idade. O educador deve compreender as dificuldades e oferecer uma educação integradora, isto é, que considere o ensino-aprendizagem, sem esquecer das experiências cotidianas do aluno.

Assim, a aprendizagem se torna mais significativa, sendo muito mais que apenas aprender ler e escrever. A alfabetização de adultos deve proporcionar aos alunos a autonomia de conhecimento perante à sociedade. 

Metodologias ativas

Além disso, é necessário que as aulas tenham um sentido prático muito forte. Por isso, é fundamental o professor lançar mão das metodologias ativas, que são são estratégias de ensino que têm por objetivo incentivar os estudantes a aprenderem de forma autônoma e participativa, por meio de problemas e situações reais, realizando tarefas que os estimulem a pensar além, a terem iniciativa.

Assim, o processo de alfabetização ocorre de maneira muito mais conectada à realidade dos jovens e adultos, contribuindo para que eles utilizem o conhecimento para alcançarem seus objetivos pessoais e profissionais.

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