Clube do Português

Língua Portuguesa, Literatura e Alfabetização

Abaixo-assinado X abaixo assinado – tem hífen?

Afinal, a forma certa é “abaixo-assinado” ou “abaixo assinado”? As duas construções estão corretas, mas se referem a coisas diferentes. Neste artigo, vamos explicar o significado de cada uma. Acompanhe a leitura!

Abaixo-assinado 

O termo “abaixo-assinado”, com hífen, é um substantivo composto masculino que se refere a um documento com diversas assinaturas diferentes, usado por um grupo de pessoas para fazer um protesto ou oposição, expressar um interesse coletivo, realizar um pedido etc.

Sinônimo de requerimento, subscrição e petição, normalmente é destinado a alguma autoridade ou a alguém que tenha poder de decisão sobre o assunto tratado no documento.

O substantivo varia em número, tendo uma forma para o singular e outra forma para o plural (abaixo-assinados), mas não varia em gênero — ou seja, não existe forma feminina da palavra.

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Análise do Discurso – o encontro da linguística com a comunicação

“O diabo está nos detalhes”. A célebre frase faz muito sentido quando se pensa na força que está por trás, ou encoberta, por uma ação discursiva. Afinal, não basta saber usar as palavras, as combinações semânticas de uma língua, para se fazer entender. A destreza gramatical, concentrada nas boas práticas da estrutura das sentenças, não é suficiente para dar conta do discurso. Este é muito mais amplo e geral.

Ceci n’est pas une pipe” ou, em português, “Isto não é um cachimbo”, tem a ver com tudo isso que se chama Análise do Discurso. Para ela, o sujeito que fala e está plenamente inserido em um contexto sociocultural, num dado momento histórico, é que importa.

Ceci n’est pas une pipe. Óleo sobre tela. Rene Magritte. 1929
Ceci n’est pas une pipe. Óleo sobre tela. Rene Magritte. 1929.

Pelo olhar da Análise do Discurso, todo discurso é carregado de ideologia e nem o uso mais rotineiro da linguagem deixa brecha para a neutralidade.

Análise do Discurso e Sistema Linguístico

A Análise do Discurso não desconsidera a relevância do sistema linguístico, mas o vê como um conceito complementar ao processo discursivo. No entanto, para esta corrente de pensamento, o discurso está inserido em um processo intimamente associado à constituição dos sentidos.

Se não, veja: quem você considera mais legítimo para dizer um “não” no seu dia a dia? Pense na quantidade de palavras que mudam de sentido dependendo de quem as emprega, da posição que essa pessoa ocupa na sua vida, de onde ela está e do momento em que as frases são ditas.

A Análise do Discurso lembra que todas estas circunstâncias sócio-históricas diferenciam as falas (e até o silêncio) deste ou daquele sujeito a partir de uma posição ideológica, permitindo construir sentidos muito distintos, segundo cada contexto. A isso chamamos formação discursiva.

Trata-se, portanto, da relação entre a linguagem e a ideologia.

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Lava-louça x Lava louça – tem hífen?

A forma correta é lava-louça, com hífen. Neste artigo, vamos explicar qual regra se aplica a este caso. Vejamos!

Verbo + Substantivo

De acordo com o ponto 1.º da Base XV do Acordo Ortográfico de 1990, os substantivos compostos formados pela união de um verbo e um substantivo devem ser hifenizados. É exatamente o caso de lava-louça, união do verbo lavar com o substantivo feminino louça.

Vejamos outros exemplos que seguem essa mesma regra: guarda-roupa, cata-vento, tapa-olho.

Vale destacar que lava-louça é um vocábulo composto formado por justaposição. Neste processo de formação de palavras, os radicais dos termos não sofrem alteração e mantêm sua grafia original.

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Ação comunicativa – entenda a teoria de Jürgen Habermas

Concentre-se na seguinte cena: você comprou uma estante nova no último fim de semana, mas agora tem de montá-la na sua sala de estar. Sua pretensão é finalmente organizar seus livros no móvel novo. Só que se esqueceu de que precisa de uma chave de fenda para apertar os parafusos.

Você sabe que seu vizinho tem uma caixa grande de ferramentas e vai até ele pedir a chave emprestada. Bate à porta dele e pede emprestada a ferramenta. Ele sempre foi solícito; diz que vai buscar o instrumento e volta com ele em mãos. Você agradece e volta para montar a estante.

Veja quantas camadas diferentes tem esse relato. Primeiro, a sua intenção subjetiva, que é ter uma estante nova montada na sala para organizar os livros. Segundo, a subjetividade do vizinho, que gosta de ajudar e não pensa duas vezes em aceitar emprestar a chave de fenda.

Em terceiro, uma ação prática; a sua, expressa em um discurso, sua fala, que pediu ao vizinho a ferramenta emprestada. Por fim, uma dimensão social, que define os códigos (critérios) sociais que ambos seguem para fazer valer tal interação.

Esses mundos – subjetivo, objetivo e social – estão na teoria da ação comunicativa proposta pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-).

A ação comunicativa pressupõe uma interação de, no mínimo dois indivíduos capazes de falar e de agir e que estabelecem relações interpessoais com o objetivo não só de compreender a situação em que ocorre a interação, mas também os supostos planos de ação que organizam suas ações pela via do entendimento.

De acordo com o filósofo, a razão comunicativa portanto vai além da relação individual de alguém com o mundo objetivo, chegando à relação intersubjetiva, na qual sujeitos que falam e atuam buscam o entendimento entre si, sobre algo.

Para ele, ao fazer isto, os atores comunicativos movem-se (jogam?) por meio de uma linguagem natural, valendo-se de interpretações culturalmente conhecidas, transitando simultaneamente em um mundo objetivo, em seu mundo social comum e em seus próprios mundos subjetivos.

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Wittgenstein e os jogos de linguagem

Os jogos de linguagem são a chave da teoria desenvolvida na “fase 2” do pensamento de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), principal nome da Teoria da Linguagem. Na nova visão do teórico, o significado de uma palavra emerge a partir de seu uso na linguagem e não da forma. O que vale, portanto, é o contexto, e este é definido pelo uso que se faz das palavras e dos significantes.

Para Wittgenstein, em contextos diferentes, cada palavra assume conotações distintas. Sai de cena, neste aspecto, a relevância congelada em um dicionário do significado das palavras e entra a multiplicidade de seus usos. O usuário, de acordo com o filósofo, se transforma em um jogador. A linguagem específica, e suas regras, dá espaço aos jogos de linguagem.

O filósofo utiliza o termo jogo, porque compara a linguagem a um jogo de xadrez, considerando as palavras como peças do tabuleiro e a escolha de cada uma delas como sendo uma jogada, um lance a ser executado.

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Explicar x Esplicar – qual a forma correta?

A grafia correta é explicar, com “x”. A forma esplicar, com “s”, está incorreta e não existe na língua portuguesa. Neste artigo, vamos fazer uma análise completa dessa palavra. Vejamos!

Explicar

Explicar é um verbo que vem do latim explicare. Percebe-se, assim, que o uso da letra “x” na primeira sílaba do termo é justificada pela etimologia da palavra. Dito de outro maneira, como a forma em latim era grafada com “x”, a palavra em português seguiu o mesmo caminho.

Vale destacar que os vocábulos derivados do verbo também devem ser escritos com “x”: explicação, explicativo, explicamos, etc.

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Batismo x Batizado – quando usar cada palavra?

As palavras batismo e batizado, apesar de serem muitas vezes utilizadas como sinônimas, têm significados e usos distintos. Neste artigo, vamos mostrar quando empregar cada uma delas. Vejamos!

A imagem mostra um criança senda batizada e tem uma legenda escrita:
Qual a diferença entre batismo e batizado?

Batismo

O termo batismo é um substantivo masculino, que dá nome ao que se dá ao processo ou sacramento de iniciação cristã de um indivíduo. Trata-se de um primeiro compromisso com Deus.

A palavra vem do latim baptismus, que significa imersão. Vejamos alguns exemplos de uso dela:

  • Maria recebeu o batismo quando tinha três meses de idade.
  • O batismo é considerado o primeiro sacramento da Igreja Católica.
  • Em algumas igrejas, o batismo só pode ser realizado em adultos.
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Arte literária – entenda a relação entre arte e literatura

O ser humano sempre sentiu a necessidade de se comunicar para transmitir informações, emoções, ideias, desejos etc. Entender e ser entendido sempre foi uma questão inevitável entre os indivíduos, por isso o homem encontrou inúmeras formas de se expressar ao longo dos séculos.

Gestos, expressões faciais, músicas, danças, desenhos, pinturas, esculturas… esses são só alguns exemplos. Mas não há como negar que, de todas as formas de comunicação que existem, a linguagem verbal é a mais eficaz, sendo manifestada pela fala e pela escrita. Ambas as manifestações tem como matéria-prima a palavra, e o homem foi descobrindo inúmeras formas de utilizá-la com o passar do tempo.

De modo geral, podemos dividir toda a nossa comunicação verbal em literária e não literária. Enquanto o texto não literário tem como objetivo principal informar, esclarecer, explicar, ou seja, tem um aspecto mais utilitarista, o texto literário faz o uso estético da linguagem verbal falada ou escrita, por isso é considerado uma arte, a arte literária.

Mas o que é arte?

Dentre os muitos significados de arte, podemos destacar estes que aparecem no dicionário on-line da Porto Editora:

  • expressão de um ideal estético através de uma atividade criativa;
  • conjunto das atividades humanas que visam essa expressão;
  • criação de obras artísticas (…)

Ou seja, podemos compreender a arte como uma atividade criativa que visa a expressão de ideias, ideologias, sentimentos, emoções, culturas e tudo mais que se desejar externar.

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Teoria dos atos de fala – conheça a teoria de Austin e Searle

Qual é o sentido por trás do ato de falar? Podemos fazer coisas através da fala? É possível agir através de palavras? O que, afinal, nos impulsiona a dizer algo? É isso que estuda a Teoria dos Atos de Fala.

Já vimos anteriormente com o filósofo pioneiro da Filosofia da Linguagem, Ludwig Wittgenstein, que, no jogo de linguagem, o sentido das palavras é determinado pelo seu uso em diferentes interações linguísticas. Mas daí surgiram outras questões:

O que quer
O que pode esta língua?
(Caetano Veloso)

A resposta é dada pela Teoria dos Atos de Fala, proposta inicialmente por John Langshaw Austin (1911-1960), filósofo pioneiro da Escola Analítica de Oxford, e depois incrementada por John Searle (1932) a partir da Filosofia da Linguagem.

Resumidamente, a teoria acredita que a função da fala vai muito além de transmitir informações. Para ele, falar é a expressão de uma ação e representa, portanto, uma forma de agir sobre o interlocutor e sobre o mundo circundante, dando sentido a ele. O ato de fala é, portanto, toda ação realizada através do dizer.

Para Austin, essa ideia extrapola a visão descritiva da língua, de que uma afirmação serve para descrever um estado de coisas e, sendo assim, pode simplesmente ser verdadeira ou falsa. Segundo o filósofo, algumas coisas não são ditas para descrever, mas sim para realizar ações.

Assim, conhecer e entender o contexto (quem fala, com quem se fala, para que se fala, onde se fala, o que se fala) é essencial para captar as pistas para a compreensão total dos enunciados.

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