Quem tem filhos pequenos sabe que a rotina é cansativa, imprevisível e, por vezes, até caótica. Nesse contexto, separar algumas horas para estudar para concursos pode parecer algo impossível.
Foi diante desse desafio que a professora Rosana Rodrigues, criadora do perfil Mães Concurseiras, construiu sua própria estratégia de preparação. Mãe de três filhos, ela começou a estudar aos 40 anos, enquanto ainda trabalhava, e conseguiu ser aprovada em quatro concursos públicos: Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG/MRE), Detran-DF, MPU e TRF1/STJ. Essas aprovações ocorreram em um período de apenas um ano e cinco meses.
Professora desde os 16 anos, Rosana percebeu durante sua preparação que os cursos ensinavam as disciplinas cobradas nas provas, mas pouco falavam sobre questões práticas que faziam parte da vida de quem estudava: como organizar a rotina, conciliar trabalho e filhos e lidar com as dificuldades emocionais do processo.
Nesta entrevista ao Clube do Português, ela compartilha justamente essa experiência. Rosana fala sobre dois desafios que costumam caminhar juntos para as mães concurseiras: a falta de tempo e o sentimento de culpa.
Além disso, apresenta estratégias para aproveitar pequenos intervalos do dia, manter a constância, evitar comparações com outros candidatos e avaliar o próprio progresso. Por fim, destaca dois aspectos fundamentais para tornar essa jornada mais sustentável: contar com uma rede de apoio e preservar o descanso e a convivência familiar.

Maternidade como motivação
Clube do Português: Como a maternidade entrou na sua trajetória de preparação para concursos? Em que momento você percebeu que precisaria encontrar uma forma diferente de estudar?
Professora Rosana: Eu já era mãe de três (10, 7 e 2 anos) quando decidi estudar para concursos públicos, e comecei justamente por conta deles (sempre foram o meu motivo). No serviço público eu vi uma maneira mais tranquila de ser mãe, profissional e manter uma excelente qualidade de vida. Porém, sendo mãe, trabalhando e estudando, eu não conseguiria passar seguindo a mesma “fórmula” de outros concurseiros. Percebi isso logo quando comecei a me organizar e dar os primeiros passos.
Falta de tempo e culpa
Clube do Português: Qual era a maior dificuldade para conciliar os estudos com a maternidade: falta de tempo, cansaço, imprevisibilidade da rotina ou sentimento de culpa?
Professora Rosana: Duas coisas pesam muito nos estudos de uma mãe concurseira: a falta de tempo e a culpa. E as duas estão relacionadas: quanto mais falta tempo para estudar ou ficar com os seus filhos, mais culpa por não estudar ou não acompanhar a vida deles.
Eu consegui driblar isso me conscientizando que quando eu estivesse estudando ou no cursinho, os meus filhos estariam sendo bem cuidados e quando eu estivesse com eles, eu não pensaria em estudos! Depois eu dava o meu jeito.
Quantas horas estudar por dia?
Clube do Português: Existe uma carga horária mínima de estudo que você considera viável para uma mãe que tem pouco tempo disponível? Como aproveitar, por exemplo, apenas uma ou duas horas por dia?
Professora Rosana: Uma coisa é certa: não adianta pensar que com uma hora por dia você vai conseguir passar logo em um concurso de alto nível (a não ser, é claro, que seja muito fora da curva). O ideal é começar um pouquinho, todos os dias por 7 dias e depois ir aumentando por 15, 21 dias, etc.
Melhor a constância e a qualidade do que o número de horas. Eu costumava estudar no carro, antes de uma aula que eu iria dar (eu era professora de inglês), durante a aula de esportes dos filhos, em consultórios, dirigindo (ouvindo podcasts no carro). Enfim, cada minuto era precioso para mim.
Mas eu diria que o ideal seriam 4 horas bem estudadas e um pouco mais no final de semana. Sempre deixando um dia somente para a família sem estudos (se o edital ainda não saiu!).

O perigo da comparação
Clube do Português: Muitas mães acabam se comparando com candidatos que conseguem estudar quatro, seis ou oito horas por dia. Como lidar com essa comparação e avaliar se o próprio ritmo de estudo está funcionando?
Professora Rosana: Primeiro, 4 horas por dia não significam necessariamente de forma ininterruptas, você pode usar 1 hora de almoço, 1 antes de ir trabalhar, no ônibus etc. Mas nunca, nunca se compare com outros concurseiros ou com outras mães concurseiras.
Cada um tem seu ritmo, seu modo de organizar as famílias. Você tem que se avaliar a cada semana, a cada edital, a cada concurso. É nítido o progresso. Não deixe para avaliar se está dando certo por períodos longos. Invista nos concursos menos concorridos no início, mesmo que não vá tomar posse.
Com certeza, você verá progresso.
A importância da rede de apoio
Clube do Português: Qual é a importância de construir uma rede de apoio para quem estuda para concursos? E o que uma mãe pode fazer quando essa rede é pequena ou praticamente inexistente?
Professora Rosana: Rede de apoio é tudo. No meu caso, a minha rede de apoio foi: pais, irmãos, marido, escola, empregada doméstica, e até vizinhos.
Como eu considero creches e escolas rede de apoio também, é praticamente impossível não ter, mas se o seu filho é um bebê ainda (entre 6 meses e 2 anos), e não está em uma creche, por exemplo, eu tentaria estudar um pouquinho 1 hora antes dele acordar e durante os soninhos da tarde.
Mas nunca tente estudar se estiver passando por privação de sono. Durma e tudo vai se encaixar!
Mães concurseiras: 5 lições da entrevista
A experiência de Rosana Rodrigues mostra que não existe uma única fórmula para conciliar maternidade e preparação para concursos. Cada família tem uma rotina diferente, mas alguns princípios podem tornar esse caminho mais viável:
- Adapte os estudos à sua realidade: Rosana percebeu que, sendo mãe de três filhos e trabalhando, não poderia seguir a mesma rotina de outros concurseiros. A estratégia precisa considerar o tempo efetivamente disponível.
- Aprenda a lidar com a culpa: falta de tempo e culpa estão relacionadas. Quando estiver estudando, procure confiar que os filhos estão bem cuidados; quando estiver com eles, tente estar presente sem pensar nos estudos.
- Priorize constância e qualidade: em vez de se preocupar apenas com a quantidade de horas, aproveite os pequenos intervalos disponíveis e aumente gradualmente o tempo de estudo. Para Rosana, “cada minuto era precioso”.
- Não compare sua rotina com a dos outros: 4 horas de estudo podem ser distribuídas ao longo do dia. Mais importante do que acompanhar o ritmo de outros candidatos é avaliar regularmente o próprio progresso.
- Construa uma rede de apoio e preserve o descanso: familiares, escola, creche e até vizinhos podem fazer parte dessa rede. E, se houver privação de sono, a prioridade deve ser descansar, não tentar encaixar mais algumas horas de estudo.