A palavra “presepada” costuma provocar riso imediato. No uso corrente, ela designa uma cena ridícula, um espetáculo tosco, uma situação constrangedora ou uma palhaçada pública. O que nem todo mundo percebe é que esse termo jocoso tem uma relação direta com o presépio, uma das representações mais tradicionais do Natal cristão.
A ligação entre os dois conceitos não é casual nem recente. Ela passa pela etimologia latina, pela história das encenações natalinas e pela transformação cultural do presépio ao longo dos séculos.
De praesepium ao presépio
O ponto de partida é o latim bíblico. No Evangelho de Lucas (2,7), na versão da Vulgata, lê-se:
“Et peperit filium suum primogenitum; et pannis eum involvit et reclinavit eum in praesepio, quia non erat eis locus in diversorio.”
O termo praesepio é a forma do caso dativo de praesepium. Como explica o professor Rafael Rigolon, praesepium designava originalmente um estábulo, um curral, e não exatamente a manjedoura:
“‘Praesepio’ é a declinação no caso dativo (que indica direção da ação) de ‘praesepium’. Um ‘praesepium’ ou um ‘praesepe’ era um estábulo, um curral.”
A manjedoura, por sua vez, é apenas um elemento dentro do estábulo — o recipiente onde se colocava a comida dos animais — e o termo chega ao português por via italiana (mangiatoia, de mangiare, “comer”). Ainda assim, ao longo do tempo, “presépio” passou a designar todo o conjunto simbólico do nascimento de Jesus.
Do espaço físico à encenação
Durante os primeiros séculos do cristianismo, o Natal era celebrado sem imagens. Assim, o foco estava no texto bíblico e na liturgia. A mudança, contudo, ocorre quando o presépio deixa de ser apenas um conceito espacial e passa a ser encenado.
Como explica Rigolon, segundo a tradição histórica, a primeira representação natalina organizada exclusivamente para o período do Natal ocorreu em 1223, em Greccio, na Itália, por iniciativa de São Francisco de Assis. Tratava-se de uma encenação com pessoas reais, animais e um estábulo improvisado, com o objetivo de tornar o episódio do nascimento de Cristo mais concreto e compreensível aos fiéis, muitos deles analfabetos.
A partir daí, a ideia se espalha pela Europa. As encenações vivas, pouco a pouco, dão lugar a figuras fixas, de madeira, barro ou cera, e o presépio se consolida como representação artística e religiosa.
Quando o presépio vira “presepada”?
É justamente desse universo das encenações natalinas que surge o termo “presepada”. Como resume Rafael Rigolon:
“Então, ‘presépio’ deixa de ter o sentido de ‘estrebaria’ e passa a significar as representações natalinas do nascimento de Jesus, tanto as de esculturas quanto as encenações. E foram desses espetáculos teatrais que surgiu a ‘presepada’.”
No Brasil, especialmente no Nordeste, o termo ganha força para designar encenações malfeitas, com figurinos toscos, cenários improvisados e atores amadores.
A partir desse tipo de experiência coletiva, “presepada” passa a significar, por extensão, qualquer espetáculo ridículo ou situação vexatória, mesmo fora do contexto religioso.
Uma palavra, duas camadas de sentido
O interessante é que “presepada” conserva, ainda hoje, uma ambiguidade curiosa:
- Na origem, remete ao presépio e às encenações do nascimento de Cristo.
- No uso moderno, afasta-se do sagrado e passa a rotular o grotesco, o exagerado, o mal executado.
Esse percurso mostra como as palavras carregam marcas culturais profundas. O que nasceu como tentativa pedagógica e devocional acabou gerando um termo irônico, crítico e popular. Temos aqui um excelente exemplo de como língua, história e prática social caminham juntas.
No fim das contas, toda “presepada” é, etimologicamente, filha do presépio. Só que, em vez de despertar reverência, ela provoca riso — às vezes constrangido, às vezes inevitável.