Atração remota na colocação pronominal: como o Cebraspe cobra?

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Colocação pronominal é um tema recorrente nas provas de português em concursos públicos. E a banca Cebraspe gosta de cobrar um aspecto específico dentro desse assunto: a chamada atração remota.

Por isso, neste artigo, vamos explicar em detalhes como funciona esse mecanismo e também vamos analisar questões do Cebraspe sobre a temática. Vejamos!

Revisão rápida: o que é colocação pronominal?

A colocação pronominal trata da posição dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe etc.) em relação ao verbo.

Existem três posições:

  • Próclise → antes do verbo (não se esqueça)
  • Ênclise → depois do verbo (esqueça-se)
  • Mesóclise → no meio do verbo (esquecer-se-á)

Palavras atrativas

No caso específico da próclise, temos as chamadas palavras atrativas ou fatores de próclise. São elas:

  • Palavras Negativas: Não, nunca, jamais, ninguém, nada, de modo algum.
    • Ex: Não me disseram a verdade.
  • Advérbios (com ou sem vírgula) e Locuções Adverbiais: Sempre, já, talvez, aqui, agora, certamente, bem.
    • Ex: Sempre te amei.
  • Pronomes Relativos: Que, quem, onde, o qual, cujo.
    • Ex: Foi ele que me ajudou.
  • Pronomes Indefinidos: Tudo, nada, alguém, ninguém, todos, poucos.
    • Ex: Tudo se resolve com o tempo.
  • Pronomes Demonstrativos: Isto, isso, aquilo, este, esse, aquele.
    • Ex: Isso me incomoda.
  • Conjunções Subordinativas: Que, se, quando, embora, porque, conforme.
    • Ex: Espero que se comportem.
  • Frases Exclamativas ou Optativas (desejo): Deus, tomara, oxalá.
    • Ex: Deus te abençoe!
  • Preposição “em” + Gerúndio: Em se tratando, em se falando.
  • Pronomes Interrogativos: Quem, que, qual, quanto.

O que é atração remota?

Nas orações subordinadas, quando há um sujeito intercalado entre o elemento atrativo e o pronome, configura-se a chamada atração remota: a força de atração permanece, o que mantém a exigência de próclise.

O que é atração remota (colocação pronominal)

Nas provas do Cebraspe, essa construção aparece da seguinte forma: existe um “gatilho” (palavra atrativa) no início da oração, mas a banca insere um sujeito intercalado — o que chamamos de distrator — entre esse gatilho e o verbo.

Para entender como isso funciona na prática, vamos analisar duas questões da banca.

Análise de questões do Cebraspe sobre atração remota

Vamos agora examinar duas questões sobre atração remota para ver como essa temática aparece nas provas.

Questão 1 CESPE / CEBRASPE – 2024 – ANTT – Especialista em Regulação de Serviços de Transportes Terrestres – conhecimentos básicos para todos os cargos

Há muitas especulações sobre qual meio de transporte teria sido “inventado” primeiro, desde o início da evolução humana, antes mesmo do surgimento da escrita. Referentemente a esse período, o fato é que muito pouco pode ser comprovado, o que nos deixa com algumas hipóteses e poucas certezas.
É provável que o ser humano tenha pensado em formas de solucionar problemas como transportar sua caça ou transpor obstáculos, mas afirmar com exatidão que isso se transformou em algum meio de transporte da forma como conhecemos hoje é bem mais complicado.

Sabemos que o homem pré-histórico se deslocava em função do clima e da oferta de alimentos. Os pés humanos foram os primeiros responsáveis por esses deslocamentos. A melhor solução para o transporte a partir dessa época surgiu com a domesticação de animais selvagens. O homem pode ter notado a facilidade de lidar com determinadas espécies animais a ponto de utilizar sua força para transportar seus pertences.

Oswaldo Dias dos Santos Junior. Transportes turísticos. Curitiba,
InterSaberes, 2014, p. 20 (com adaptações).

Julgue o item subsequente, em relação aos sentidos e aspectos linguísticos do texto precedente.

No primeiro período do terceiro parágrafo, a próclise pronominal em “se deslocava” justifica-se pelo caráter desenvolvido da oração subordinada em que tal trecho se insere.

(x) Certo
( ) Errado

Análise da questão

Aqui estamos diante de um caso clássico de atração remota. Perceba que temos ali uma palavra atrativa (a conjunção integrante “que”). Logo depois, foi inserido um sujeito (“o homem pré-histórico”).

Nesse contexto, o poder de atração do pronome se mantém e, por isso, estamos diante de um caso de próclise obrigatória.

Questão 2 – CESPE / CEBRASPE – 2024 – MPE-TO – Analista Ministerial Especializado – Área de Atuação: Pedagogia

Quando falamos em direito, estamos falando inicialmente de um enorme conjunto de regras obrigatórias, o chamado direito positivo. Mas o vocábulo direito é usado também para os estudos, o curso de direito, a assim chamada “ciência do direito”. Numa terceira acepção, a palavra designa os direitos de cada um de nós, chamados de direitos subjetivos, pois somos os sujeitos, os titulares, desses direitos.

Ninguém ignora que paira sobre nossas cabeças uma gigantesca teia de normas, que atinge praticamente todas as nossas atividades. Muitos pensadores têm destacado que o direito atual parece ter invadido tudo: há direito em toda parte, para todos, para tudo. A contrapartida é que, assim como temos de seguir as normas, os outros também têm de obedecer a elas e, desse modo, respeitar os direitos de cada um de nós, os ditos direitos subjetivos. 

Vivemos num tempo em que as questões legais se tornaram corriqueiras. Apesar dessa popularização, ainda existe uma enorme dificuldade de acesso às coisas do direito. Ao mesmo tempo, os mecanismos da justiça são cada vez mais acionados, até para resolver quem fica com o cachorro depois da separação, ou se o condomínio pode impedir seus moradores de ter animais. A sobrecarga dos tribunais, e sua lentidão, é parcialmente consequência desse excesso de litigiosidade e da incapacidade das pessoas de resolver com bom senso, compreensão e respeito as questões de convivência em sociedade.

Eduardo Muylaert. Direito no cotidiano: guia de sobrevivência na selva das leis. São Paulo: Editora Contexto, 2020, p. 11-13 (com adaptações). 

Acerca dos sentidos e de aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir. 

No primeiro período do terceiro parágrafo, a forma pronominal “se” poderia ser corretamente deslocada para logo após a forma verbal “tornaram” — escrevendo-se tornaram-se. 

( ) Certo
(X) Errado

Análise da questão

Perceba que nesta questão o avaliador foi pelo caminho inverso da anterior. Aqui temos, mais uma vez, um caso de atração remota.

Logo no início temos uma palavra atrativa (o pronome relativo “que”) seguido de um sujeito (o chamado “distrator”). Como você já sabe, nessa construção, a próclise é obrigatória! Por isso, não é possível deslocar o pronome para depois do verbo como a assertiva sugere.

A regra de ouro da atração remota

Para fechar este artigo, deixo aqui para você a regra de ouro para acertar todos as questões sobre atração remota nas provas do Cebraspe:

  • Passo 1: Identifique o gatilho de próclise: presença de pronomes atrativos, advérbios ou conjunções subordinativas.
  • Passo 2: Encontre o distrator (sujeito): O sujeito da oração posiciona-se entre o gatilho e o verbo. Não se deixe cegar pela extensão do sujeito (ex: “o homem pré-histórico”); a força atrativa do gatilho inicial permanece intacta.
  • Passo 3: Verifique se o pronome está antes do verbo: A próclise é obrigatória. O deslocamento do pronome para depois do verbo (ênclise) é erro gramatical punido pela banca.

Em resumo, dominar esse padrão de análise é o que vai permitir que você identifique rapidamente a lógica do Cebraspe. Assim, você evita cair nas armadilhas mais recorrentes sobre colocação pronominal.