Assunto recorrente em provas, a colocação pronominal apresenta várias particularidades que são exploradas pelas bancas. Neste artigo, vamos tratar de uma delas que sempre pega muitos concurseiros desprevinidos: a colocação dos pronomes oblíquos em locuções verbais.
Ao final, vamos também analisar uma questão real de prova para entender como o tema é cobrado em provas de concursos públicos. Vamos lá!
O que é uma locução verbal?
Antes de avançarmos, vamos relembrar o que é uma locução verbal. Celso Cunha e Lindley Cintra explicam que esse tipo de construção é constituída de um verbo auxiliar seguido de uma das formas nominais do verbo (gerúndio, infinitivo ou particípio).
Exemplos:
- Devo expor detalhes.
- Estavam convidando para o passeio.
- Tenho feito muito por essa comunidade.
Feita essa rápida revisão, vamos entender as principais regras para colocação pronominal com locuções verbais.
1. Verbo principal no infinitivo ou gerúndio
Cunha e Cintra ensinam que, quando o verbo principal está no infinitivo (expor, fazer, dizer) ou no gerúndio (falando, dizendo, fazendo), há flexibilidade na colocação pronominal:
Ênclise
Nesses casos, a ênclise sempre será possível, mesmo quando houver a presença de palavras atrativas (fatores de próclise). Vejamos alguns exemplos:
- Não devo expor-te detalhes do ocorrido.
- Disseram que estavam convidando-me para o passeio.
- Ia desenrolando-se a paisagem.
Também é possível utilizar o pronome após o verbo auxiliar:
- Não devo-te expor detalhes do ocorrido.
- Disseram que estavam-me convidando para o passeio.
- Ia-se desenrolando a paisagem.
Próclise
Quando houver palavras atrativas, é possível utilizar a próclise:
- O tempo que navegamos não se pode calcular.
- Sei que os estavam levando para lugares desconhecidos.

3. Verbo principal no particípio
Aqui está a regra mais importante — e onde muita gente erra:
Se o verbo principal estiver no particípio, o pronome não pode se ligar a ele.
Forma incorreta:
- Tinha explicado-me o problema.
Forma correta:
- Tinha-me explicado o problema.
O pronome deve ficar após o verbo auxiliar (ou antes dele, se houver atrativo).
Atenção ao detalhe importante. Se houver palavra atrativa, a próclise prevalece:
- Não me tinha explicado o problema.

Por que esses casos causam tanta confusão?
Domingos Paschoal Cegalla destaca que a tendência para a próclise é predominante no Brasil porque as formas pronominais não são completamente átonas na nossa pronúncia, mas sim semitônica. Ou seja, a gente pronuncia esses pronomes com certa força.
Então, no dia a dia, usamos os pronomes antes do verbo. Assim, durante as provas, parece anti-intuitivo colocar o pronome após o verbo (ênclise). Por isso, precisamos conhecer bem as regras e ter atenção redobrada quando nos depararmos com esse tópico.
Para consolidar esse conhecimento, vamos conferir questões da banca Cebraspe sobre o tema.
Análise de questão sobre colocação pronominal com locuções verbais
Vamos agora mergulhar na prática para entender de vez como esse tema é cobrado em provas de concurso.
Questão 1 – CESPE / CEBRASPE – 2024 – INPI – Analista De Planejamento, Gestão E Infraestrutura Em Propriedade Industrial

No trecho “é o impulso das trocas linguísticas que as está levando a essa situação” (segundo período), seria gramaticalmente correta a colocação da forma pronominal “as” em ênclise à forma de gerúndio “levando” — levando-as.
(x) Certo
( ) Errado
Análise da questão
Como vimos antes, quando a locução verbal for formada por um verbo no gerúndio, a ênclise é sempre possível. Logo, não há problema algum em deslocar o pronome oblíquo para depois do verbo principal, como propõe o enunciado.
Questão 2 – CESPE / CEBRASPE – 2024 – Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim – ES – Enfermeiro

Em “poderiam até se valer de um salvo-conduto” (último período), a próclise do pronome “se” é obrigatória, haja vista o emprego do vocábulo “até”.
( ) Certo
(x) Errado
Análise da questão
Lembra que com locuções verbais formadas com infinitivo a ênclise sempre é possível? Isso ocorre mesmo que haja uma palavra atrativa na frase. Por isso, não estamos diante de um caso de próclise obrigatória.