Qual é a sua reação quando se encontra no breu total? Já experimentou essa sensação de não enxergar um palmo à frente do nariz, de perder qualquer referência visual? Pois bem, há mais de meio milhão de brasileiros que vivem isso, por conta de alguma deficiência visual total, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, os brasileiros com algum grau de dificuldade visual representam 3,4% (mais de 6,5 milhões) da população.

Não se trata apenas de imaginar a enorme chance de tropeçar no primeiro obstáculo que encontrar. O caso aqui é muito mais profundo e envolve barreiras à inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho e na vida social como um todo, simplesmente pela dificuldade de comunicação pelo uso da escrita e da leitura.

O Braile resolve isso. O sistema de escrita e leitura tátil foi desenvolvido pelo francês Louis Braille, que havia perdido a visão quando era criança. Na juventude, ele criou um programa para ensinar os cegos a ler, e dessa vivência surgiu o braile.

Como funciona o braile

O sistema funciona a partir da leitura com as mãos de um código formado por 64 símbolos. Esses símbolos em relevo e as combinações de até seis pontos representam as letras do alfabeto, os sinais de pontuação e os números – o espaço entre os pontos também é considerado um sinal.

Diferentemente da linguagem de sinais (Libras), a comunicação se dá por meio de um conjunto codificado que se assemelha ao alfabeto convencional. Os sinais conservam as características originais da língua portuguesa, porém, como há algumas vogais com acentos e outros símbolos, algumas marcas exclusivas foram acrescentadas (daí o total de 64 códigos distintos).

O “texto” em braile é disposto em uma célula (que substitui a folha de papel), sempre em duas colunas de três linhas cada. O sistema tem regras próprias para o uso de letras maiúsculas e minúsculas, assim como para siglas, abreviações e muitos outros casos.

O relevo é gravado nela com um buril (ferramenta de aço com ponta cortante, utilizada na gravação em metal ou madeira para abrir traços finos). Só que a forma de fazer isso é invertida, ou seja, feita da direita para a esquerda. Isso porque, naturalmente, ao forçar a placa com o buril, o escritor está produzindo marcas em baixo relevo. Para acessar o que texto, o leitor precisa virar a folha e, assim, ter os relevos ressaltados na folha e no sentido correto para que a leitura seja feita.

Pode-se ainda usar uma máquina de escrever específica para a produção de textos em braile ou ainda ditar o texto por meio de comando de voz para que um software transforme cada comando dito em sinais adaptados ao código braile.

Para ser impresso depois, será necessário usar um programa de tratamento específico e uma impressora braile. Infelizmente, o custo de impressão de um material em braile ainda é bem alto no País.

Conhecendo os códigos

Para ler em braile é preciso conhecer os símbolos, cujo sistema foi oficializado em 1852. A leitura é feita da esquerda para a direita, como estamos acostumados a fazer em Português, e pode ser realizada com uma ou com as duas mãos. No caso da leitura bimanual (com as duas mãos), cada uma lê a metade de um parágrafo. Já na leitura unimanual, a mão volta até a metade do parágrafo para descer daí para a próxima linha do texto.

Com isso, ao passar as pontas dos dedos na célula, a pessoa “alfabetizada em braile” percebe as nuances do código gravado em relevo e identifica o que está escrito.

Há ainda audiobooks e audiotecas, que ajudam a disseminar o acesso à informação a mais pessoas, sobretudo àquelas que ainda não foram “alfabetizadas” em braile.

Braile no Brasil

A trajetória do sistema no Brasil começou no período do Império, com José Álvares de Azevedo, filho do escritor Álvares de Azevedo. Ele foi enviado a Paris para aprender o método e voltou com a vontade de expandir o conhecimento para outras pessoas com deficiência visual.

Começou então a dar aulas, palestras e a ensinar à população. Sob as graças de D. Pedro II, fundou em 1854, no Rio de Janeiro, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos, conhecido hoje por Instituto Benjamin Constant. A data de nascimento de José Álvares – 8 de abril – foi escolhida como o Dia Nacional do Braile.

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