O mês de setembro é especial para os deficientes auditivos. O Dia Nacional do Surdo é comemorado em 26 de setembro em homenagem à fundação da primeira escola de surdos no Brasil, no ano de 1857, no Rio de Janeiro. As celebrações, contudo, começam no dia 1º, aniversário da Lei nº 12.319/2010, que regulamenta o exercício da profissão de tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais, e se estendem aos dias 10, Dia Mundial da Língua de Sinais, e 30, quando o Brasil comemora o Dia do Tradutor/Intérprete.

Na conexão entre esses dois mundos – o dos surdos e o dos tradutores –, temos a Libras, sigla para Língua Brasileira de Sinais, que representa o conjunto de formas gestuais que é utilizado por deficientes auditivos para se comunicarem entre si e com ouvintes.

É esta língua que estamos nos acostumando a ver mais e mais presente no dia a dia de eventos de todos os tipos, dos políticos aos artísticos. Já é muito comum ter intérpretes de Libras nesses espaços e, de alguma forma, divulgando a linguagem de sinais e a tornando mais acessível a todos.

Os sinais e a comunicação de Libras

Como em qualquer língua, Libras é formada pela coordenação de marcas padronizadas para comunicar (transmitir) ideias e fatos. A maior diferença em relação a como as pessoas ouvintes se expressam está no modo de articulação da linguagem, que acontece de forma visual-espacial, e não oral, porque, por óbvio, a emissão de sons não é perceptível a todos – vale lembrar que há deficientes que ouvem certos sons, mas não o suficiente para manterem uma comunicação plena, muitas vezes porque não conseguem reproduzir as palavras pela fala.

O alfabeto em Libras, portanto, surge de movimentos das mãos combinados com pontos de articulação no próprio corpo humano ou no espaço, com o discurso sendo “escrito no ar”, quase como um jogo de mímica, só que usando gestos muito bem codificados.

Não é à toa ainda que essa língua usa muitas expressões faciais e corporais. Sem som, muitas vezes o ritmo é “demonstrado” pelo suingue do tradutor.

Algumas particularidades da língua facilitam sua compreensão e tornam o gestual mais dinâmico e acelerado, capaz de rivalizar com a velocidade da fala. Os verbos, por exemplo, sempre são apresentados no infinitivo.

Também não existirem pronomes pessoais, o que obriga o “falante” a apontar a pessoa a quem se refere. Desse modo, a construção das orações é mais objetiva (em geral, segue o padrão sujeito-verbo-objeto) e flexível. Por exemplo, a frase “Eu foi à escola ontem à noite”, em Libras pode ser transmitida como “Eu-escola-ontem-noite” ou apenas “Ontem-noite-escola”.

Outra particularidade é a adaptação dos movimentos típicos dos números cardinais para expressar os ordinais (primeiro, segundo, terceiro). Faz-se isso tremendo levemente a mão simultaneamente à apresentação do sinal numérico correspondente.

Como qualquer língua, Libras implica uma estrutura singular, dotada de léxico (conjunto de palavras do vernáculo) e gramática próprios. Não é possível, assim, entendê-la simplesmente como a transcrição em gestos da língua portuguesa. Além de uma semântica própria, ela usa muita contextualização e expressões típicas de grupos sociais distintos. Isso exige mais do que conhecer os movimentos característicos do alfabeto em Libras.

É preciso interpretar para compreender as relações entre os elementos que compõem uma frase. Até porque existem várias línguas de sinais pelo mundo, entre elas: Língua Gestual Portuguesa (LGP); Sign Language of Netherlands (SLN); American Sign Language (ASL); Lengua de Señas Argentina (LSA); e Langue des Signes Française (LSF).

Aqui, uma última curiosidade: a Libras foi inspirada na língua francesa de sinais, criada no século XVIII e trazida pelo professor francês Ernest Huet, que se mudou para o Brasil em 1855 a convite de D. Pedro II.

Segunda língua oficial do Brasil

Desde 24 de abril de 2002, a Libras é reconhecida como meio legal de comunicação (Lei nº 10.436) e potencial de expressão para mais de dez milhões de brasileiros com alguma deficiência auditiva, de acordo com o IBGE.

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