O universo semântico de Renan Santos: 10 termos-chave

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Nas últimas pesquisas eleitorais, uma novidade tem chamado a atenção: o crescimento de Renan Santos, do Partido Missão, na corrida presidencial. Aos 42 anos, um dos principais nomes do Movimento Brasil Livre (MBL) tem ganhado destaque por sua estratégia de comunicação digital e também por propostas que mexem com o senso comum.

Esse programa de governo que o candidato propõe ganha corpo em um conjunto de termos e ideias-chaves que ele reforça em seus vídeos, discursos e entrevistas. Neste artigo, vamos analisar 10 conceitos que compõem esse universo semântico de Renan Santos e mostrar como eles ilustram sua visão de Brasil.

Para isso, fizemos uma análise de 10 entrevistas concedidas por ele nos últimos meses. Confira!

Blocos temáticos

Os 10 termos-chaves podem ser divididos em 3 grandes blocos temáticos, como você pode ver abaixo:

BlocoConceito / Termo
Retomada Territorial e Choque de OrdemEstado de defesa
Prendeu, matou
Direito penal do inimigo
Bandeira, quartel, escola
Eficiência AdministrativaFusão de municípios
Interventor
Frentes de trabalho
Identidade e RupturaRuptura geracional
Tecnotenentismo
Desfavelização

Análise dos conceitos

1. Estado de defesa

Trata-se de um termo técnico do campo jurídico-constitucional, previsto no art. 136 da Constituição Federal. Trata-se de uma medida excepcional decretada pelo Presidente da República para restaurar a ordem pública ou paz social em locais restritos e determinados, ameaçados por instabilidade institucional grave ou calamidades de grandes proporções. 

Contudo, no universo semântico de Renan Santos, o conceito é ressignificado como instrumento de ação imediata.

Do ponto de vista discursivo, ocorre aqui um fenômeno de recontextualização: um conceito formal é deslocado para um campo semântico de urgência e excepcionalidade. Isso reforça um efeito de legitimidade técnica aliado a uma sensação de crise.

2. “Prendeu, matou”

Essa construção é particularmente interessante do ponto de vista linguístico. Temos uma estrutura paratática, sem conectivos, formada por dois verbos no pretérito perfeito. O efeito desejado é mostrar uma ação rápida e sem rodeios.

O slogan define a postura das forças de segurança diante da resistência armada de facções. Como explica Renan, se o criminoso se entregar, será preso; se resistir com armas de guerra, será abatido.

Além disso, a ausência de sujeito explícito cria um efeito de generalização (um recurso típico do discurso político para ampliar a adesão). Trata-se de um enunciado que privilegia o que a Análise do Discurso chama de efeito performativo, em que dizer é quase fazer.

3. Direito penal do inimigo

O direito penal do inimigo é uma doutrina jurídica, do alemão Günther Jakobs, que propõe tratar membros de facções como terroristas que não reconhecem o Estado, retirando-lhes certas garantias do cidadão comum.

Aqui temos um exemplo de interdiscursividade: o termo vem da teoria jurídica, mas é incorporado ao discurso político com forte carga ideológica.

A palavra “inimigo” desloca o campo semântico do direito (tradicionalmente neutro) para o da guerra. Isso ativa uma oposição binária típica: cidadão x inimigo.

4. “Bandeira, quartel, escola”

Esses três substantivos concretos funcionam como metonímias. Trata-se de uma figura de linguagem que substitui um termo por outro devido a uma relação lógica de proximidade ou afinidade entre eles.

Nesse sentido, as palavras passam a expressar valores maiores que marcam o processo de retomada do território descrito por Renan Santos:

  • bandeira → nação
  • quartel → ordem
  • escola → formação

Além disso, o slogan faz uso de uma estratégia retórica chamada tríade ou tricolon. Essa consiste em utilizar três elementos em sequência — sejam palavras, frases ou orações — com o objetivo de conduzir o leitor com fluidez e fixar a ideia na memória.

Essa repetição estrutural não é mero efeito estilístico, mas um recurso que explora um padrão cognitivo recorrente. A construção em tríade produz uma sensação de fechamento e equilíbrio. Como observa Mark Forsyth, “você divide algo em três partes, não porque precise, mas porque três parece completo.”

5. Fusão de municípios

O processo de fusão de municípios está previsto no art. 18 da Constituição Brasileira. No programa de Renan Santos, a proposta é fundir cidades que não são autossustentáveis e revisar a distribuição de impostos para favorecer regiões produtivas em detrimento de elites extrativistas.

Para defender essa medida, o presidente do Partido Missão lança mão da antítese como estratégia discursiva, contrapondo o que, na visão dele, é um confronto entre o “Brasil pagador de conta” e o “Brasil improdutivo”.

6. Interventor

Apesar de, à primeira vista, a palavra ativar um campo semântico autoritário, historicamente associado a regimes de exceção, no discurso de Renan Santos, ela aparece ressignificada como figura de gestão eficiente.

Nesse contexto, o interventor funcionaria como uma metáfora de “remédio amargo” para uma administração “doente” ou capturada por interesses clientelistas. Ele deixa, assim, de ser interpretado como figura de ruptura institucional e passa a ser apresentado como agente corretivo, alguém que atua de forma temporária para restaurar a eficiência administrativa.

7. Frentes de trabalho

Nesse ponto, o líder do MBL utiliza a intertextualidade e traz referentes históricos positivos, como o New Deal de Roosevelt ou as políticas de Reagan, para validar a proposta como uma medida de dignidade pelo trabalho.

Assim ele ativa um repertório simbólico já consolidado no imaginário coletivo, que remete a ideias como progresso econômico, recuperação nacional e valorização do trabalho.

Do ponto de vista discursivo, isso funciona como um mecanismo de ancoragem de sentido: propostas inicialmente controversas passam a ser interpretadas à luz de experiências historicamente reconhecidas.

A ideia, segundo o político, é combater o assistencialismo puro e simples e utilizar a força de trabalho de pessoas jovens e saudáveis para construir a infraestrutura que o país necessita.

Nesse enquadramento, o trabalho é elevado a valor central, associado à participação ativa no desenvolvimento do Brasil, reposicionando o cidadão de beneficiário para agente.

8. Ruptura geracional

Aqui entramos no campo da identidade. O termo mobiliza uma oposição temporal: velho x novo. O discurso foca na busca por pertencimento de jovens que não se veem representados por referências culturais do passado.

No campo linguístico, ao introduzir o conceito de “geração”, Renan busca mostrar que o problema do Brasil não é um simples embate entre esquerda e direita, e sim uma questão de visão de mundo de pessoas que não se reconhecem nos representantes políticos atuais.

Temos aqui então um reenquadramento semântico que altera o foco do debate e insere novos elementos. O debate é reorganizado em novos termos, incorporando categorias como pertencimento, identidade e reconhecimento. Com isso, amplia-se o potencial de adesão, pois o discurso passa a dialogar não apenas com posições políticas, mas com sentimentos de deslocamento e falta de representação.

9. Tecnotenentismo

Este é talvez o termo mais singular do conjunto. Temos aqui um neologismo híbrido, que combina:

  • “tecno” → tecnologia, modernidade
  • “tenentismo” → movimento político-militar histórico

O conceito representa, nesse sentido, a fusão entre a inovação tecnológica e o espírito de revolta do movimento tenentista, usando ferramentas digitais para romper com oligarquias políticas tradicionais.

Em mais um caso de intertextualidade, essa ideia conversa com as ideias do polêmico pensador Curtis Yarvin, uma das influências do Partido Missão, que propõe desenvolver uma infraestrutura de TI para substituir servidores públicos, ajudando a tornar o Estado mais eficiente e a reduzir a influência ideológica na burocracia governamental.

10. Desfavelização

Trata-se de um substantivo derivado por prefixação (des- + favelização). O prefixo des- é um elemento de origem latina utilizado na língua portuguesa para indicar negação, ação contrária, separação, afastamento ou privação. Ele transforma o sentido da palavra base, geralmente criando o seu oposto.

O termo ilustra, dessa forma, o projeto de Renan de, em dez anos, urbanizar favelas, reformando casas ou construindo prédios, acompanhado da entrega de títulos de propriedade para integrar essas áreas à economia formal.

Além disso, o político argumenta que a medida é necessária também para acabar com a “cultura de favela”, que não seria condizente com uma visão moderna do Brasil.

Universo semântico e visão de mundo

A análise mostra que o discurso não atua apenas no nível das propostas, mas na forma como o sentido é construído. Por meio de escolhas linguísticas (como frases curtas e impactantes, uso de termos técnicos ressignificados, referências históricas e mudanças no enquadramento do debate), cria-se um sistema coerente que orienta a interpretação do público.

Esses recursos ajudam a organizar ideias, ativar associações na mente do interlocutor e reposicionar temas complexos, evidenciando que a linguagem não apenas comunica propostas, mas funciona como parte central da estratégia política, moldando a forma como a realidade é percebida.