O plural da expressão mãe solo é mães solo. Neste artigo, vamos explicar por que somente o primeiro vocábulo deve ser flexionado. Também vamos mostrar a origem do termo e como ele se relaciona com uma mudança sociológica na visão de família. Confira!
Valor apositivo
De acordo com a Academia Brasileira de Letras, a expressão “mãe solo” é uma locução substantiva. Nesse sentido, a palavra “solo” não funciona como adjetivo, mas sim como um substantivo de origem italiana que indica algo que é executado por apenas um indivíduo.
Teria, nesse sentido, um significado similar ao de uma solista de uma orquestra ou de um coral. Assim, o termo assume um valor apositivo, ou seja, funciona como um aposto e resume um conceito mais amplo.
Dessa forma, “solo” condensa a ideia de uma mulher que assume sozinha a criação dos filhos, responsabilizando-se integralmente pelas necessidades financeiras e afetivas das crianças.
Nesse contexto, o vocábulo é invariável e não deve ser flexionado para o plural. É algo semelhante ao que acontece em “políticas antidroga”. Logo, o correto é “mães solo“.

Mãe solo x Mãe solteira
O termo “mãe solo” surgiu para designar uma forma de parentalidade desvinculada do estado civil. Segundo a socióloga Ana Liési Thurler, mulheres passaram a questionar a expressão “mãe solteira”, porque ela teria origem no pensamento patriarcal, que estabelece o casamento como o espaço permitido para o nascimento.
Nesse sentido, reforçaria-se a ideia de que uma mulher só poderia ser mãe se fosse casada. Por essa razão, essa denominação indicaria um julgamento moral excessivo sobre as mulheres. Afinal, é bem raro escutarmos por aí que um homem é “pai solteiro”, não é mesmo?
Funções sociais da língua
Uma das quatro funções sociais da língua é a de representação. Nela, as pessoas utilizam palavras para afirmarem um traço identitário, uma maneira de serem vistas e reconhecidas pelos outros.
É nesse contexto que se encaixa a expressão “mãe solo”. Sua adoção tem como objetivo resignificar o papel das chefes de família monoparentais, o que contribui para mudar o olhar da sociedade sobre os direitos e necessidades dessas mulheres.
Ao substituir a expressão “mãe solteira”, o foco deixa de recair sobre o estado civil da mulher e passa a destacar a responsabilidade assumida na criação dos filhos. Essa mudança vocabular também procura reduzir estigmas historicamente associados à maternidade fora do casamento.
Em vez de enfatizar uma suposta ausência conjugal, a expressão “mãe solo” evidencia a autonomia, a sobrecarga e os desafios enfrentados por mulheres que conduzem sozinhas a vida familiar. Assim, a escolha das palavras revela como a língua acompanha transformações sociais e pode funcionar como instrumento de reconhecimento e inclusão.