A obra mais conhecida de Paulina Chiziane, “Niketche – uma História de Poligamia” foi publicada no ano de 2002, 10 anos depois da Guerra Civil que devastou Moçambique. O livro conta a história de Rami, mulher traída que se une às quatro amantes do marido, visando formar uma grande família. 

O livro é narrado pela própria protagonista e marcado por seus fluxos de consciência ao avaliar o seu lugar de mulher na sociedade moçambicana. “Niketche” é vencedora do prêmio Camões em 2021, e se trata de uma história que questiona as condições do público feminino na sociedade. 

Personagens principais de “Niketche – uma História de Poligamia”

Os personagens principais de “Niketche – uma História de Poligamia”, são:

  • Rami ou Rosa Maria: é a protagonista casada com Tony. Narradora da própria história. 
  • Tony ou António Tomás: é o marido de Rami que a trai com quatro outras mulheres. 
  • Julieta: é a segunda mulher de Tony.
  • Luísa: é a terceira mulher de Tony.
  • Saly: é a quarta mulher de Tony.
  • Mauá: é a quinta mulher de Tony.
  • Levy: é o irmão de Tony.
  • Maria: é a tia de Rami.
  • Vito: é o amante de Luísa e Rami.

Resumo de “Niketche – uma História de Poligamia”

Em “Niketche – uma História de Poligamia”, é contada a história de Rami, por meio da narração da própria protagonista, ou seja, se trata de uma narradora-personagem. É importante destacar que a palavra “Niketche” faz referência a uma dança tradicional do norte de Moçambique. Essa dança é um ritual realizado por mulheres quando entram na vida matrimonial.

O enredo gira em torno da protagonista que descobre, após 20 anos de casamento, que o seu marido, Tony, está sendo infiel. No entanto, em um primeiro momento, ela se culpa diante do espelho pela ausência e desinteresse de seu esposo. Porém, após esse fato, ela decide procurar pela amante do marido, a Julieta, com quem ele também tem filhos. 

Contudo, ao fazer isso, as duas saem no tapa e acabam sendo feridas e em um cenário inesperado, Julieta cuida das feridas de Rami. Atitude que provoca na esposa um espanto e, consequentemente, a quebra da raiva que sentia. Assim, as duas conversam e a amante confessa que não vê Tony há sete meses, o que provoca uma estranha empatia em Rami.

Entretanto, se Tony não está com uma e nem com a outra, as duas entendem que há uma terceira. Em razão disso, Rami vai em busca de respostas e conhece Luísa, outra esposa de seu marido. Ao confrontá-la, assim como ocorreu com Julieta, as duas acabam em uma luta física. Porém, no fim, também se tornam amigas. 

O fato é que a história não acaba por aí. O Tony, além de Julieta e Luísa, também tem um relacionamento com Saly e Mauá, o que faz com que a protagonista comece a se questionar sobre a poligamia. 

Assim, ela reúne todas as mulheres e o marido, para propor que se tornem uma única família. Visto que, ela não aceita perder o esposo e sabe que ele não deixará de ter relações extraconjugais. No entanto, Tony fica envergonhado diante da “grande família” e acaba fugindo da situação. 

Diante disso, as mulheres decidem fazer uma espécie de “escala conjugal”, na qual o marido possa passar uma semana com cada uma delas. Porém, Tony começa a se envolver com uma sexta mulher, deixando as outras cinco preocupadas. 

Nesse meio tempo, Rami, que já é super amiga das amantes, é convidada para uma festa na casa de Luísa e acaba se envolvendo com Vito, o amante dela. Assim, mais uma vez, as duas passam a dividir o mesmo homem. 

Durante o enredo, Rami começa a mudar a sua postura. Ela percebe as injustiças que rodeiam as mulheres de Moçambique, especialmente no que diz respeito às relações. Contudo, uma notícia muda tudo: Tony é atropelado e supostamente morre. Isso porque, o corpo do falecido fica irreconhecido, dando margem ao erro. 

Assim, Rami acaba assumindo um relacionamento com Levy, irmão de seu marido. Porém, tempos depois, Tony volta e descobre que foi dado como morto. Nesse ínterim, Luísa deixa Tony e se casa com Vito, convidando Rami para ser a segunda esposa. 

As outras três mulheres seguem com Tony e ainda procuram outra esposa para ocupar o lugar vago, mas Tony não quer mais se envolver com ninguém, encerrando assim a dança de Niketche. 

Contexto histórico de “Niketche – uma História de Poligamia”

A obra “Niketche – uma História de Poligamia”, tem como pano de fundo a instabilidade política e social, gerada pelo Acordo Geral de Paz, assinado em 1992, em Moçambique. Apesar da diminuição de conflitos entre a Resistência Nacional Moçambicana e o governo da Frente de Libertação de Moçambique, a paz ainda era ameaçada.

É neste contexto que a história de poligamia se desenvolve. Assim como em outras obras criadas no período da pós-independência, Niketche também valoriza a diversidade cultural para aumentar a união do país. 

Análise literária de “Niketche – uma História de Poligamia”

Dividida em 43 capítulos, “Niketche – uma História de Poligamia” é contada pela narradora-personagem, Rami. A protagonista analisa, durante o enredo, a sua condição e das demais mulheres vinculadas à tradição de Moçambique. Desta forma, o leitor consegue entender qual a realidade feminina da época, marcada pela submissão ao homem. 

O tempo da narrativa não é revelado, porém, é notório que a história ocorre em uma época posterior à Guerra Civil Moçambicana, ou seja, após 1992. Além disso, a ambientação é do sul de Moçambique, porém outras localidades são citadas, como Zambézia e Cabo Delgado.

A história começa com uma traição, na qual a esposa se sente culpada, por se olhar no espelho e não se achar mais atraente. Entretanto, no decorrer da narrativa, a mulher traída faz amizade com as amantes do marido e até propõe que se tornem uma única família. 

Neste cenário, nota-se que a autora sobressai a voz feminina, a partir do momento em que as amantes começam a ter empatia uma pela outra, deixando a rivalidade de lado. Contudo, também é possível notar que há uma crítica de costumes por trás do enredo, no qual as mulheres devem ser sempre submissas ao homem. 

Isso porque, Paulina Chiziane aborda a mulher na sociedade patriarcal, destacando as responsabilidades da esposa de Tony, enquanto ele está sempre ausente. Nesse sentido, a esposa cuida da casa e dos filhos, sendo essas as suas responsabilidades familiares. 

Até a finalização da obra, o leitor consegue ver Rami em um processo de autodescoberta e evolução, aprendendo a não se culpabilizar pelos erros que não partiram dela. Além de visualizar a sororidade entre as personagens. 

Sobre a autora Paulina Chiziane

Paulina Chiziane nasceu em Moçambique, cidade de Manjacaze, em 1955. Embora filha de pai protestante, Chiziane cursou o primário em uma instituição católica. No entanto, se formou na Escola Comercial de Maputo e estudou linguística na Universidade Eduardo Mondlane.  

A autora se envolveu com a Frente de Libertação de Moçambique e trabalhou junto à Cruz Vermelha, no período da Guerra Civil. Além disso, Chiziane integrou o Núcleo das Associações Femininas da Zambezia (Nafeza). 

Com o seu romance “Niketche – uma História de Poligamia”, a escritora conquistou o Prêmio Camões, em 2021.

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