“Amapô”, “loka”, “acué”, “mona”, “picumã”… Essas palavras, incompreensíveis para muita gente, fazem parte de um sistema linguístico complexo utilizado pela comunidade LGBTQIA+: o pajubá. Mais do que um conjunto de gírias, ele é um fenômeno cultural que revela história, identidade e resistência.
Neste artigo, vamos explicar a origem e o contexto sociocultural dessa linguagem e também o significado dos principais termos. Vejamos!
O que é o pajubá?
O pajubá (ou bajubá) é uma linguagem sociocultural utilizada principalmente por pessoas LGBTQIA+, especialmente travestis e mulheres trans. Ele reúne palavras e expressões criadas ou adaptadas dentro dessa comunidade, formando um vocabulário próprio.

No entanto, não se trata apenas de gíria: o pajubá funciona como um código linguístico que cumpre funções sociais importantes, como reforçar a identidade de grupo e permitir uma comunicação mais protegida em contextos de exclusão.
Origem: repressão, sobrevivência e ancestralidade
Sua origem está profundamente ligada a contextos de repressão, especialmente durante a ditadura militar no Brasil.
Nesse período, travestis e mulheres trans desenvolveram estratégias para se comunicar sem serem compreendidas por agentes externos, como a polícia. Assim, o pajubá surgiu como uma linguagem de proteção e sobrevivência.
Ao mesmo tempo, ele carrega uma forte herança africana, com diversas palavras provenientes de línguas como o iorubá e o nagô, presentes em religiões de matriz africana.
O próprio termo “pajubá” pode estar relacionado à ideia de “segredo”, o que reforça sua função original.
Características linguísticas do pajubá
Do ponto de vista linguístico, o pajubá apresenta características bastante interessantes, que podem ser organizadas da seguinte forma:
| Característica | Descrição |
|---|---|
| Mistura linguística | Combina elementos do português com línguas africanas e criações próprias |
| Subversão de gênero | Feminização de palavras como forma de identidade e ruptura de normas |
| Codificação semântica | Uso de palavras com significados específicos dentro do grupo |
| Dinamicidade | Mudança constante do vocabulário para manter exclusividade |
Exemplos de termos do pajubá
O vocabulário do pajubá é bastante rico. Abaixo, alguns exemplos de termos e seus significados:
| Termo | Significado |
|---|---|
| Acué | Dinheiro |
| Amapô | Mulher |
| Alibã | Polícia |
| Mona | Mulher / amiga |
| Babado | Situação impactante, fofoca |
| Arrasou | Fez algo muito bem |
Subversão de gênero na linguagem
Um dos traços mais marcantes do pajubá é a subversão de gênero gramatical. Palavras tradicionalmente masculinas são frequentemente transformadas em femininas, como “o relógio” que vira “a relógia” ou “o prédio” que se torna “a prédia”. Esse recurso não é apenas estilístico, mas também simbólico, pois desafia normas linguísticas associadas a padrões sociais mais amplos.
Do ponto de vista linguístico, trata-se de um processo de reinterpretação morfológica e pragmática: o gênero gramatical deixa de ser apenas uma categoria formal da língua portuguesa e passa a funcionar como marcador de identidade e posicionamento social. Ao feminizar termos, falantes de pajubá não estão apenas “alterando palavras”, mas ressignificando o próprio sistema de gênero da língua, que historicamente privilegia o masculino como padrão.
Esse fenômeno também pode ser entendido como uma forma de apropriação e reconfiguração do discurso dominante. Ao deslocar o masculino e substituí-lo pelo feminino, o pajubá produz um efeito de inversão simbólica. O que era marginalizado passa a ocupar o centro da enunciação.
Pajubá como identidade e resistência
O pajubá desempenha um papel importante na construção de identidade e pertencimento. Ele funciona como um marcador social que aproxima indivíduos dentro da comunidade LGBTQIA+ e, ao mesmo tempo, cria uma barreira simbólica em relação a quem está fora dela.
Do ponto de vista sociolinguístico, seu uso sinaliza pertencimento a uma comunidade de prática: não basta conhecer palavras, é preciso dominar os contextos e intenções de uso. Isso gera reconhecimento mútuo e fortalece vínculos internos, ao mesmo tempo em que delimita fronteiras simbólicas.
Assim, o pajubá não apenas comunica, mas também expressa identidade, cria pertencimento e funciona como uma forma de resistência simbólica.
Do código secreto à cultura popular
Nas últimas décadas, o pajubá ultrapassou os limites da comunidade em que surgiu e passou a influenciar a cultura popular brasileira. Expressões como “lacrou”, “arrasou” e “babado” foram incorporadas ao vocabulário cotidiano, aparecendo em programas de TV, redes sociais e até em provas como o ENEM.
Esse movimento revela uma transformação importante: o que antes era uma linguagem de sobrevivência tornou-se também uma linguagem de expressão cultural ampla.
Conclusão
O pajubá não é apenas um conjunto de palavras curiosas. Ele é um registro vivo das experiências de uma comunidade que enfrentou (e ainda enfrenta) exclusão, mas que encontrou na linguagem uma forma de resistência, criatividade e afirmação.