Verbos causativos e sensitivos: conceito, exemplos e questões

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Em provas de concursos públicos, certos temas gramaticais se destacam não apenas pela frequência com que são cobrados, mas também pelo nível de complexidade que envolvem. É o caso dos verbos causativos e sensitivos, dois grupos verbais que costumam confundir até candidatos experientes.

Esses verbos exigem atenção redobrada, porque afetam diretamente a estrutura da oração, interferem na colocação pronominal, no uso do infinitivo e até na concordância verbal. Além disso, sua construção pode parecer semelhante à de uma locução verbal, embora funcione de maneira diferente na análise sintática.

Neste artigo, vamos explorar em profundidade os verbos causativos e sensitivos: o que são, quais são seus principais exemplos, como se comportam sintaticamente, quais são as armadilhas mais comuns e como interpretá-los corretamente em questões de prova. Além disso, também faremos análise de questões sobre o tema. Vejamos!

O que são verbos causativos?

Os verbos causativos indicam que o sujeito não realiza diretamente a ação, mas faz com que ela seja realizada por outra pessoa ou coisa. Em outras palavras, há uma ideia de causa ou permissão: o sujeito é responsável por provocar a ação, mas não é o agente direto dela.

Exemplo:

  • Joana fez o irmão lavar o carro. (Joana não lavou o carro; ela causou a ação, que foi executada pelo irmão.)

Esse tipo de construção é muito comum na linguagem cotidiana e aparece frequentemente em provas que cobram análise sintática e regência verbal.

Exemplos de verbos causativos

Os verbos mais frequentemente classificados como causativos são:

  • fazer
  • mandar
  • deixar
  • obrigar
  • permitir
  • induzir
  • convencer

Todos eles compartilham o fato de provocar ou permitir uma ação realizada por outrem:

  • A professora fez os alunos copiarem a matéria.
  • O pai deixou o filho sair com os amigos.
  • Ela obrigou o irmão a pedir desculpas.

Como usar os verbos causativos?

É importante observar a estrutura sintática desses verbos. Quando usados na forma causativa, geralmente seguem o padrão:

  • sujeito + verbo causativo + objeto direto (quem realiza a ação) + verbo no infinitivo

Veja:

  • Ele mandou sair mais cedo os funcionários.
  • Clara fez o menino chorar.
  • João permitiu que o amigo ficasse na casa dele.

Note que o verbo no infinitivo (“sair”, “chorar”, “ficar”) refere-se ao objeto direto (“os funcionários”, “o menino”, “o amigo”), e não ao sujeito da oração principal.

Vale ressaltar que, no primeiro exemplo, a frase admite dupla concordância. Nesse sentido, por conta do sujeito da segunda oração estar no plural e vir anteposto ao verbo, podemos realizar a flexão.

  • Ele mandou saírem mais cedo os funcionários.

Vamos aprofundar mais esse tópico daqui a pouco, beleza?

O que são verbos sensitivos?

Os verbos sensitivos, por sua vez, indicam uma percepção física ou sensorial do sujeito em relação à ação praticada por outra pessoa ou coisa. Diferentemente dos causativos, que exprimem ação provocada, os sensitivos expressam ação observada, sentida ou percebida.

Eles também seguem a mesma estrutura sintática: o sujeito do verbo sensitivo percebe alguém realizando uma ação expressa por um verbo no infinitivo.

Exemplos de verbos sensitivos

Os principais verbos sensitivos são:

  • ver
  • ouvir
  • sentir
  • notar
  • perceber
  • observar
  • escutar
  • imaginar
  • pressentir

Esses verbos estão associados à visão, audição, tato, emoção ou percepção mais ampla:

  • Ouvi minha mãe chegar de madrugada.
  • Percebi os alunos cochicharem durante a aula.
  • Vi as crianças brincarem no parquinho.

Como usar os verbos sensitivos?

Assim como nos verbos causativos, os sensitivos costumam vir acompanhados de:

  • sujeito + verbo sensitivo + objeto direto (quem realiza a ação) + verbo no infinitivo

Observe:

  • O técnico viu os jogadores entrarem em campo.
  • Ela ouviu o bebê chorar.
  • Sentimos o chão tremer com o trovão.

Importante: o verbo no infinitivo pode aparecer flexionado ou não, dependendo da posição do sujeito da ação (tema que será explorado um pouco mais à frente).

Particularidades sintáticas

Os verbos causativos e sensitivos apresentam um comportamento sintático peculiar, que costuma gerar dúvida, especialmente quando o verbo principal é seguido por outro no infinitivo. Essa construção levanta questões sobre funções sintáticas, concordância e até emprego de pronomes.

O infinitivo como oração subordinada substantiva objetiva direta

Quando usamos verbos causativos ou sensitivos, o verbo no infinitivo não forma uma locução verbal com o verbo principal. Na verdade, ele introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo.

Exemplo:

  • O pai fez o filho estudar.

Note que “estudar” é o núcleo de uma oração reduzida, cujo sujeito é “o filho”.

Essa estrutura explica por que o verbo no infinitivo pode ter seu próprio sujeito, que não é o mesmo sujeito do verbo principal.

O pronome oblíquo funcionando como sujeito

Essa construção é uma das poucas situações em que um pronome oblíquo átono (como o, a, me, te, se) exerce função de sujeito do verbo no infinitivo. Vejamos um exemplo:

  • Mandei-os sair.

Perceba que o pronome “os” é sujeito do verbo “sair”. Para entender melhor, vamos substituir o pronome oblíquo por um pronome reto:

  • Mandei eles saírem.

Esse é um ponto muito explorado em provas, pois foge à regra tradicional de que pronomes oblíquos são complementos. Nesse caso, o pronome oblíquo é sujeito do infinitivo, o que exige atenção especial à análise sintática.

Concordância do infinitivo

Uma das maiores fontes de dúvida no uso dos verbos causativos e sensitivos está na flexão (ou não) do verbo no infinitivo que em geral os acompanham. A pergunta é comum: o infinitivo deve ir para o plural quando seu sujeito estiver no plural?

A resposta depende da posição e da forma do sujeito do infinitivo.

Regra geral: infinitivo permanece no singular com pronome oblíquo

Quando o sujeito do verbo no infinitivo for representado por um pronome oblíquo átono (me, te, se, o, a, nos, vos, os, as), o verbo no infinitivo deve permanecer no singular.

Exemplo:

  • O chefe mandou-os sair. (“os” é o sujeito de “sair”, mas o verbo não se flexiona)

Outro exemplo:

  • Ela deixou-nos falar.

Flexão do infinitivo com sujeito substantivo plural

Se o sujeito do infinitivo for um substantivo plural, a concordância dependerá da posição desse sujeito na oração:

a) Sujeito antes do verbo no infinitivo → concordância obrigatória

  • O juiz mandou os réus saírem da sala.

O verbo “sair” flexiona obrigatoriamente para o plural, pois o sujeito explícito (“os réus”) está antes dele.

b) Sujeito depois do verbo no infinitivo → flexão facultativa

  • O juiz mandou sair os réus da sala.
  • O juiz mandou saírem os réus da sala.

Ambas as formas estão corretas. A flexão do infinitivo nesse caso é facultativa, pois o sujeito aparece depois do verbo no infinitivo.

Plural obrigatório em construções reflexivas ou recíprocas

Quando a ação expressa pelo infinitivo for reflexiva (o sujeito faz algo consigo mesmo) ou recíproca (os sujeitos agem um sobre o outro), o verbo no infinitivo deve ir para o plural, mesmo que o sujeito seja representado por um pronome oblíquo.

Exemplo:

  • Ela deixou-se levar. (reflexiva, sujeito no singular → singular)
  • Os convidados viram os noivos se abraçarem. (recíproca, sujeito plural → verbo no plural)

Causativos e sensitivos nas locuções verbais

Uma das armadilhas mais recorrentes nas provas de gramática é a confusão entre estrutura com verbo causativo ou sensitivo e locução verbal. Embora ambas as construções envolvam dois verbos, o comportamento sintático e o sentido são distintos.

Estrutura parecida, mas função diferente

As locuções verbais são formadas por um verbo auxiliar + um verbo principal, que juntos expressam uma única ação verbal. Já nas construções com verbos causativos e sensitivos, o segundo verbo (no infinitivo) possui seu próprio sujeito.

Esse fato o transforma em núcleo de uma oração subordinada reduzida de infinitivo, e não em parte de uma locução verbal. Para entender melhor, vamos observar as frases seguintes:

Locução verbal:

  • Ele vai estudar para a prova. (“vai” é auxiliar, “estudar” é principal — os dois têm o mesmo sujeito: “ele”)

Verbo causativo:

  • Ele fez o irmão estudar para a prova. (“fez” é o verbo principal; “o irmão” é o sujeito de “estudar”)

Verbo sensitivo:

  • Ela ouviu os meninos cantarem. (Quem “ouviu” foi “ela”, mas quem “cantou” foram “os meninos”)

O infinitivo não forma uma unidade verbal com o verbo principal

Na locução verbal, os dois verbos formam um bloco semântico. Já nos causativos e sensitivos, o segundo verbo inicia uma nova oração, com sujeito próprio.

Por isso:

  • Não se pode dizer que “fazer estudar” ou “ver correr” sejam locuções verbais.
  • A análise sintática exige observar quem pratica a ação do verbo no infinitivo.

Esse ponto é essencial para diferenciar as construções em análises de período composto, identificação de orações subordinadas, reescrita de frases e reconhecimento de sujeitos.

Questões sobre verbos causativos e sensitivos

Para fechar este artigo, vamos conferir duas questões sobre verbos causativos e sensitivos para entender como o tema é cobrado em provas de concursos públicos.

Questão 1 – FUMARC – 2018 – CEMIG – MG – Analista de Gestão Administrativa JR

Atente para o emprego dos pronomes pessoais oblíquos e a análise apresentada, na sequência. Assinale a opção que traz afirmação INCORRETA:

a) Enquanto nos deleitamos com essa esquizofrenia consumista, nós não enxergaremos ela e não a combateremos. ➔ Emprego correto: ambos os pronomes pessoais complementam verbos transitivos – “enxergar” e “combater”, respectivamente.
b) Para mim, falar sobre pós-modernidade é difícil. Para eu discutir esse tema, terei de ler muito sobre ele. ➔ Empregos corretos: pronome pessoal oblíquo funciona como complemento; o pronome reto, como sujeito.
c) A ciência prometia dar segurança ao homem, mas lhe deu mais desgraças e não lhe tranquilizou a existência. ➔ Empregos corretos: o pronome oblíquo “lhe” funciona como complemento verbal, na primeira ocorrência, e como adjunto adnominal, na segunda.
d) A argumentação do professor Sanches nos faz sair da zona de conforto do individualismo e nos deixa refletir sobre a existência. ➔ Emprego correto: pronome oblíquo “nos” funciona como sujeito dos verbos “sair” e “refletir”, após os causativos “fazer” e “deixar”.

Resposta: Letra A

Comentário: Na primeira frase, não está correto utilizar o pronome pessoal do caso reto “ela”, porque estamos diante de um complemento verbal. Logo, o certo seria usar o pronome oblíquo. Ademais, como “não” é uma palavra atrativa, ela funciona como fator de próclise. Por isso, o pronome deveria vir antes do verbo.

Porém, eu gostaria de analisar também a alternativa D, que trata do uso dos verbos causativos e sensitivos. Como vimos, nesses casos, o pronome oblíquo pode de fato exercer a função de sujeito dos infinitivos. É exatamente isso que ocorre neste caso.

Questão 2 – VUNESP – 2025 – SEDUC-SP – Professor de Educação Básica II – Língua Portuguesa

Com base no conceito de Prática de Análise Linguística (Currículo Paulista: etapa ensino médio, 2020), quanto ao uso significativo das palavras no texto, identifica-se emprego de termo com função de realce em:

a) Só agora me lembrou que faz hoje um ano…
b) como no dia em que o perdeu, lá se vão tantos anos.
c) … e peço a você que me espere para ir comigo.
d) Rita fá-lo lavar todos os meses, e isto impede que envelheça.
e) Em quase todas havia a mesma antiga súplica da nossa…

Resposta: Letra B

Comentário: A partícula de realce é o termo que pode ser retirado da frase, sem prejuízo para o sentido. Em geral, ela aparece junto com o verbo “ser”.

Mas gostaria aqui de chamar atenção para a letra D. Nela, temos um exemplo do que falamos anteriormente: a combinação de um verbo causativo (fazer) com o pronome oblíquo. Por conta dessa combinação, mais uma vez, o pronome exerce a função de sujeito do infinitivo (lavar).

Conclusão

O estudo dos verbos causativos e sensitivos exige atenção redobrada por parte dos candidatos, especialmente porque essas construções envolvem nuances sintáticas que fogem ao padrão tradicional da língua. Embora sejam comuns no uso cotidiano, seu comportamento gramatical — sobretudo em relação à função do infinitivo, à concordância verbal e ao uso de pronomes oblíquos como sujeito — pode confundir até quem tem boa base teórica.

A chave para dominar esse conteúdo está em:

  • Identificar se o verbo principal expressa causa ou percepção;
  • Verificar quem pratica a ação do verbo no infinitivo;
  • Observar a posição do sujeito para decidir se o infinitivo deve ser flexionado;
  • Evitar a armadilha de tratar essas construções como locuções verbais;
  • Prestar atenção especial às construções com pronomes oblíquos, que têm comportamento excepcional.

Dominar esses detalhes não só aumenta sua segurança em questões de análise sintática, como também ajuda em tópicos correlatos como regência, concordância e reescrita de períodos. Para quem está se preparando para concursos, esse é um daqueles assuntos que vale revisar mais de uma vez — porque quando aparece na prova, costuma vir com pegadinhas.