A alfabetização de uma criança sempre vai além de capacitá-la a ler e escrever. Afinal, este é o momento de sua vida no qual o seu desenvolvimento se molda e quando os padrões de comportamento (atitudes, sentimentos, hábitos) são estabelecidos. No caso de uma criança com deficiência visual, é a mesma coisa.

Para garantir sua inclusão, o apoio especializado é importante. Adaptações são essenciais, mas tudo isso não impede que o processo de alfabetização seja feito na escola regular inclusiva, capaz de oferecer tratamento humanizado e igualitário nos mesmos espaços das crianças vidente.

Desenvolvimento motor

Antes de tudo, cabe ao educador compreender que, sem a objetividade que a visão dá, a elaboração mental se dá de modo diferente. Tanto os mecanismos sensoriais quanto o processo de observação se reorganizam, e os demais sentidos precisam ser aguçados para suprir a função visual de perceber e entender os objetos em relações simultâneas de posição, tamanho, forma, altura e largura.

Entra em cena, então, a importância do desenvolvimento motor. Tocar o objeto se torna primordial: a criança deve ser fortemente estimulada por materiais de manuseio e exploração. Quanto mais simples for o formato do objeto, maior seu valor educativo. As atividades da leitura e escrita braile precisam de muita coordenação motora fina e discriminada, relacionada aos pequenos músculos das mãos e dos dedos, além de usar material com pontilhos braile.

Mas é preciso enxergar muito além das limitações que a deficiência visual poderia impor ao aluno. É imperativo lembrar que ele já carrega consigo uma bagagem de conhecimentos e levar isso em conta, valorizando suas capacidades antes mesmo do contexto escolar.

Adaptando a aula e a sala

Já na sala de aula, uma mudança importante a ser levada em conta é o uso da lousa. O educador de uma turma com alunos com deficiência é mais vocal e tem de verbalizar mais para as crianças.

O conhecimento do braile é outra ferramenta indispensável, claro. Porém é fundamental perceber que a alfabetização dessas crianças não pode se fechar nisso. Uma série de outros caminhos podem ser trabalhados, como a exploração do espaço físico.

A orientação temporal-espacial é importante pois, para a criança deficiente visual, o tempo é o espaço vivido. Cada movimento no espaço tem um ponto de partida, um de chegada e uma duração. O medo e a insegurança diante do desconhecido precisam ser superados em atividades que ajudem a criança a se aventurar.

Reconhecer vozes e repetir rimas e melodias podem estimulá-la a aprender as relações diretas entre o som ouvido e o objeto sonoro que, para o deficiente visual, por muito tempo tem um aspecto mais subjetivo. Para melhorar a percepção do som, um chocalho ajuda a criar uma realidade espacial e objetiva. Nas demais atividades, pode-se adotar o rádio, mas também um podcast ou outro arquivo de áudio com um conteúdo atraente.

A interação com os colegas deve ser estimulada e orientada, bem como o bom uso da tecnologia. Um exemplo é o uso de softwares, que faz a reprodução de livros e textos em áudio no computador, auxilia o aluno a “ler” livros didáticos.

Vontade de aprender, disponibilidade para se desenvolver e empatia são, no fim, os ingredientes básicos para que a jornada termine bem.

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