8 termos evangélicos que ninguém de fora entende

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Entre os muitos modos de falar existentes no Brasil, há um socioleto amplamente empregado por comunidades evangélicas e que desempenha papel relevante na construção de identidade e na organização comunicativa desse grupo: o léxico religioso evangélico, fulgarmente conhecido como “crentês”.

Ele é composto por expressões que utilizam metáforas, referências bíblicas e estruturas discursivas que traduzem modos específicos de compreender temas como espiritualidade, moralidade e vida comunitária.

Embora não constitua uma língua formal, o léxico religioso evangélico funciona como um vocabulário especializado, que atua como marcador de pertencimento, mecanismo de diferenciação simbólica e elemento de coesão social. Além disso, esse repertório linguístico ajuda a transmitir uma visão de mundo compartilhada e sustentada por referenciais teológicos comuns.

Por isso, neste artigo, vamos apresentar algumas das expressões mais recorrentes desse linguajar, explicando suas origens, significados e funções socioculturais.

1) Deus usou um vaso

Para um leigo, a frase “Deus usou um vaso” pode não fazer sentido inicalmente. Contudo, essa expressão é um exemplo perfeito de como o léxico religioso evangélico ressignifica o cotidiano. Aqui, “vaso” refere-se a uma pessoa.

A expressão significa que Deus utilizou um indivíduo para transmitir uma mensagem, realizar uma ação ou ajudar alguém. A origem dessa poderosa metáfora está na passagem bíblica de Jeremias 18, onde o profeta observa um oleiro (Deus) moldando o barro (a pessoa).

Ser um “vaso”, portanto, não é um estado passivo, mas um processo contínuo de ser um instrumento moldado pelo desejo divino para cumprir Seus propósitos.

2) Estar na carne

Ao ouvir a expressão “estar na carne” fora do contexto religioso, é possível que algumas pessoas a interpretem de maneira literal, associando-a a situações cotidianas relacionadas ao alimento ou ao trabalho com carne.

No linguajar evangélico, no entanto, essa expressão se afasta do literal para descrever um estado espiritual. “Estar na carne” significa agir sob o domínio dos desejos do corpo, estar em pecado ou desalinhado com os propósitos divinos.

É a condição de quem se deixa levar por seus impulsos e interesses mundanos em vez de ser guiado pelo espírito.

3) Queima, Jesus!

Poucas expressões soam tão chocantes e violentas para um ouvinte desavisado quanto “Queima, Jesus!”.

A frase pode evocar imagens de inquisição ou sugerir a fúria de Jesus contra os pecadores. Contudo, o sentido é exatamente o oposto.

Na simbologia bíblica, o fogo é frequentemente um agente de purificação. Portanto, a expressão é, na verdade, uma “oração forte”, um pedido intenso para que Jesus purifique uma pessoa ou uma situação, removendo todas as impurezas e o mal.

É, portanto, um clamor por limpeza espiritual, não por destruição literal.

4) Varão e Varoa

Ouvir as palavras “varão” e “varoa” em uma conversa pode soar como se alguém tivesse acabado de sair de um texto medieval.

Embora “varão” seja, de fato, um termo arcaico para “homem” encontrado nas escrituras, no léxico evangélico, seu uso é mais específico: refere-se a um “homem de Deus”, alguém de fé e conduta exemplar.

Já “Varoa” é sua contraparte feminina, citada pela primeira vez na Bíblia em Gênesis 2:23 para se referir a Eva.

Do ponto de vista sociolinguístico, o uso desses arcaísmos é uma estratégia deliberada para separar o discurso sagrado da fala cotidiana e mundana.

Ao adotar esses termos, a comunidade cria um registro linguístico distinto que confere solenidade ao contexto espiritual e reforça uma identidade de grupo.

5) Reteté

A palavra “Reteté” parece uma onomatopeia ou um termo inventado, e de certa forma é. Ela descreve um estado de grande fervor e poder espiritual durante um culto, quando uma pessoa, sentindo a presença de Deus de forma intensa, começa a pular, rodar e gritar.

Como fenômeno linguístico, o “Reteté” é um fascinante exemplo de um neologismo não bíblico que se tornou central nas práticas de adoração carismática.

Embora a palavra não esteja nas escrituras, a justificativa para o comportamento é encontrada retroativamente na história do Rei Davi, que, em 2º Samuel 6, dançou com toda a sua alegria diante da Arca da Aliança.

6) Tá amarrado

A expressão “Tá amarrado” pode sugerir que alguém foi literalmente contido com uma corda, mas seu significado é puramente espiritual.

É um termo performativo, uma declaração de fé usada para repreender, anular ou neutralizar as ações do diabo (o “inimigo”) ou de forças malignas na vida de alguém. A base bíblica para essa autoridade declarada é mais profunda do que parece.

Em Marcos 3:27, Jesus usa a metáfora de que, para saquear a casa de um homem forte, é preciso primeiro amarrá-lo. Essa passagem, assim, é interpretada como a autoridade espiritual que os fiéis têm para “amarrar” as forças do mal, impedindo sua influência.

7) Atravessar um deserto

Dizer que alguém está “atravessando um deserto” não tem nada a ver com uma viagem a um lugar árido com camelos. Trata-se de uma poderosa metáfora para descrever um período de dificuldade, provação ou escassez, um tempo em que nada parece acontecer e a fé é testada ao limite.

A expressão tem sua origem na épica jornada do povo de Israel que, segundo a narrativa bíblica, atravessou o deserto por 40 anos, liderado por Moisés, até chegar à Terra Prometida.

Ao usar essa frase, o falante enquadra suas lutas pessoais em uma grande narrativa de fé, onde o “deserto” não é um destino final, mas um caminho necessário para alcançar um lugar de “vitória” e bênçãos.

8) Espada de fogo

Uma “espada de fogo” soa como um artefato poderoso saído de um videogame ou de filme. No universo evangélico, porém, essa arma espiritual é algo que muitos têm em casa: a Bíblia Sagrada. A associação vem da crença de que a Palavra de Deus é uma ferramenta viva, eficaz e poderosa na batalha espiritual.

A justificativa para essa metáfora é encontrada de forma explícita em uma passagem do Novo Testamento, que a descreve como uma arma precisa e cortante.

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” (Hebreus 4:12)

Resumo das expressões

Para ajudá-lo a lembrar o significado das expressões, preparamos uma tabela-resumo:

ExpressãoSignificadoOrigem / Base Bíblica
Deus usou um vasoDeus utilizou uma pessoa como instrumento.Jeremias 18 (oleiro e barro).
Estar na carneAgir segundo impulsos considerados mundanos ou pecaminosos.Escritos paulinos sobre “carne x espírito”.
Queima, Jesus!Pedido de purificação espiritual.Simbologia bíblica do fogo como purificação.
Varão / VaroaHomem ou mulher de fé e conduta exemplar.Gênesis 2:23 e termos bíblicos arcaicos.
RetetéMomento de grande fervor espiritual no culto.Associado à dança de Davi (2 Samuel 6).
Tá amarradoDeclaração de resistência a forças malignas.Marcos 3:27 (“amarrar o homem forte”).
Atravessar um desertoViver período de provação ou dificuldade.Narrativa do Êxodo.
Espada de fogoMetáfora para a Bíblia como instrumento de discernimento.Hebreus 4:12.

Uma língua viva

Como vimos, o linguajar evangélico é muito mais do que um conjunto de jargões curiosos. É uma linguagem viva que constrói identidade, expressa uma complexa cosmovisão e fortalece os laços de uma comunidade unida pela fé.

Cada expressão, seja um arcaísmo ressignificado ou um neologismo popular, carrega séculos de teologia, narrativas bíblicas e experiências espirituais, transformando a comunicação cotidiana em um ato de afirmação de crenças.

E você? Já ouviu alguma dessas expressões ou conhece outra que não citamos?