Uma das produções mais marcantes do Arcadismo no Brasil, “Marília de Dirceu” é a obra mais emblemática de Tomás Antônio Gonzaga. 

Publicado a partir de 1792, o longo poema lírico, repleto de emoção, explora o amor de Dirceu pela pastora Marília. Dentro do Arcadismo, o eu lírico relata a sua paixão por Marília e a vontade de viver uma vida singela ao seu lado. 

Estrutura da obra “Marília de Dirceu”

A obra “Marília de Dirceu”, é escrita em versos e possui a seguinte estrutura:

  • Primeira parte: publicada em 1792, contém 33 liras.
  • Segunda parte: publicada em 1799, contém 38 liras.
  • Terceira parte: publicação póstuma de 1812, anexa a obra original com textos não publicados no decorrer da vida do autor. Contém  9 liras e 13 sonetos. 

Resumo do poema “Marília de Dirceu”

As liras de “Marília de Dirceu” falam sobre o amor entre dois pastores de ovelhas. Os versos revelam o amor de Dirceu por Marília e ainda retratam as expectativas futuras do eu lírico. No entanto, esse sentimento não pode ser consumado, pois Dirceu foi exilado de seu país. 

Na primeira parte da obra, o foco é a comparação entre a natureza e a beleza de Marília, ambas muito exaltadas. Confira um trecho:

Parte I, Lira II

“Os seus compridos cabelos,

Que sobre as costas ondeiam,

São que os de Apolo mais belos;

Mas de loura cor não são.

Têm a cor da negra noite;

E com o branco do rosto

Fazem, Marília, um composto

Da mais formosa união.

Tem redonda, e lisa testa,

Arqueadas sobrancelhas;

A voz meiga, a vista honesta,

E seus olhos são uns sóis.

Aqui vence Amor ao Céu,

Que no dia luminoso

O Céu tem um Sol formoso,

E o travesso Amor tem dois.

Na sua face mimosa,

Marília, estão misturadas

Purpúreas folhas de rosa,

Brancas folhas de jasmim.

Dos rubins mais preciosos

Os seus beiços são formados;

Os seus dentes delicados

São pedaços de marfim.”

Além disso, Dirceu destaca em seus versos um retrato do Brasil do século XVIII, período em que a economia, a cultura e a sociedade passaram por intensa transformação. O autor também fala da destruição das florestas que davam lugar às plantações, pela ampliação da atividade agrícola. 

Gonzaga também fala sobre a vida burguesa e o quanto ser intelectual era algo valorizado na época. 

Parte I Lira XXVII

“O ser herói, Marília, não consiste

Em queimar os Impérios: move a guerra,

Espalha o sangue humano,

E despovoa a terra

Também o mau tirano.

Consiste o ser herói em viver justo:

E tanto pode ser herói pobre,

Como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela,

Segundo da virtude a honrosa estrada:

Ganhei, ganhei um trono,

Ah! não manchei a espada,

Não roubei ao dono.

Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:

E valem muito mais que o mundo inteiro

Uns tão ditosos laços. “

Já na segunda parte, o leitor nota um tom de solidão. Isso porque, o eu lírico está na prisão devido ao seu envolvimento com a Inconfidência Mineira, em Minas Gerais. No entanto, mesmo na situação em que se encontra, o eu lírico, continua exaltando sua musa inspiradora e falando sobre o amor e a saudade que sente. 

Parte II, Lira I

“Já não cinjo de louro a minha testa;

Nem sonoras canções o Deus me inspira:

Ah! que nem me resta

Uma já quebrada,

Mal sonora Lira!

Mas neste mesmo estado, em que me vejo,

Pede, Marília, Amor que vá cantar-te:

Cumpro o seu desejo;

E ao que resta supra

A paixão, e a arte.

A fumaça, Marília, da candeia,

Que a molhada parede ou suja, ou pinta,

Bem que tosca, e feia,

Agora me pode

Ministrar a tinta.”

O autor demonstra diferentes sentimentos como, tristeza, injustiça e medo. Assim, na parte II, o poema traz um tom pessimista e emotivo. Gonzaga também usa os versos para realizar uma crítica social sobre a desigualdade de classes e os abusos vindos das pessoas de mais poder. 

Parte II, Lira XX

“Ele diz, que em dormir cuide,

Que hei de ver Marília em sonho,

Não respondo uma palavra,

A dura cama componho,

Apago a triste candeia,

E vou-me logo deitar.

Como pode a tais cuidados

Resistir, ó minha Bela,

Quem não tem de Amor a graça;

Se eu, que vivo à sombra dela,

Inda vivo desta sorte,

Sempre triste a suspirar?

A terceira e última parte, apresenta ainda mais pessimismo e melancolia. A solidão e a angústia são notadas, enquanto o eu lírico continua a exaltar Marília e falar sobre o seu amor. 

Parte III, Lira IX

“Desses teus olhos divinos,

que, terno e sossegados,

enchem de flores os prados

enchem de luzes os céus?

Ah! não posso, não, não posso

dizer-te, meu bem, adeus!

Destes teus olhos, enfim,

que domam tigres valentes,

que nem rígidas serpentes

resistem aos tiros seus?

Ah! não posso, não, não posso

dizer-te, meu bem, adeus!”

Contexto histórico de “Marília de Dirceu”

Escrita a partir de 1788 e com a sua primeira publicação em 1792, a obra “Marília de Dirceu”, foi exposta durante o período colonial do Brasil, época de grandes transformações sociais e políticas. 

Neste mesmo período, ocorria a Inconfidência Mineira, movimento no qual Gonzaga fez parte, provocando a sua prisão e o exílio do país. Enquanto preso, o autor escreveu uma boa parte da obra. 

É importante salientar que, nessa época, as produções literárias eram fortemente influenciadas pelas ideias do Iluminismo, as quais destacam a liberdade e igualdade.  

Análise literária de “Marília de Dirceu”

As principais características de “Marília de Dirceu” são a descrição da natureza, a simplicidade da escrita do autor e uma dose de romantismo, bucolismo e pastoralismo. A obra é de caráter autobiográfico e Gonzaga a escreveu inspirado em sua própria história de amor. 

Embora não haja registros que confirmem a identidade de “Marília”, acredita-se que seu verdadeiro nome era Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão. Gonzaga a conheceu em Ouro Preto, Minas Gerais, enquanto trabalhava como Ouvidor Geral. 

Os dois chegaram a noivar, porém, o autor foi acusado de conspiração pelo seu envolvimento com a Inconfidência Mineira. Assim, foi preso e exilado na África, impedido de estar próximo de sua amada. 

A obra fez tanto sucesso que, em 1967, o serviço postal brasileiro homenageou Marília por meio de um selo, apesar de ela ser, supostamente, apenas um personagem.

Marília de Dirceu
Fonte da imagem: Disponível aqui

Na obra, Gonzaga explora temas como natureza, amor, liberdade e saudade, por intermédio de uma linguagem poética marcada pela presença de musicalidade e atributos próprios do Arcadismo. 

A natureza é usada para retratar os sentimentos dos personagens, bem como a simplicidade da vida. As liras, são organizadas de forma oposta ao Barroco, movimento anterior ao Arcadismo, eliminando os excessos que os poetas consideravam inúteis. 

Sobre o autor Tomás Antônio Gonzaga

Filho de mãe portuguesa e pai brasileiro, Tomás Antônio Gonzaga nasceu em 11 de agosto de 1744, em Miragaia, Portugal. O autor ficou órfão de mãe ainda bebê e, por essa razão, foi morar no Recife em 1751, com seu pai. 

Passou a infância e juventude em Recife e estudou no Colégio Jesuíta, na Bahia. Só voltou para Portugal para estudar Direito na Universidade de Coimbra, se formando em 1768 e exercendo a profissão de juiz na cidade de Beja. 

No ano de 1782, Gonzaga retorna ao Brasil para trabalhar como Ouvidor Geral em Ouro Preto, Minas Gerais. Nesse período ele conhece Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, a qual se torna a inspiração para a sua mais emblemática obra “Marília de Dirceu”. 

Pouco tempo depois, o casal fica noivo, mas por estar envolvido na Inconfidência Mineira, Gonzaga é acusado de conspiração, sendo preso no Rio de Janeiro. Lá, permanece refluxo por cerca de 3 anos e depois é transferido para a África para cumprir sua sentença.

Ali exerce a profissão de advogado e juiz da alfândega e se casa em 1793 com Juliana de Sousa Mascarenhas, com quem tem dois filhos. Em 1810, o autor morreu com 66 anos em Moçambique. Tomás Antônio Gonzaga escreveu muitos poemas, no entanto, os que mais se destacaram foram: Marília de Dirceu, poema lírico, publicado em 1792, e Cartas Chilenas, poema satírico, publicado em 1863, após a sua morte. 

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