Adultização: sinais de alerta para professores e pais

12 min de leitura

A infância e a adolescência são fases fundamentais para a construção do aprendizado, mas, quando essas etapas são encurtadas, o desenvolvimento pode ser comprometido. Esse é o fenômeno da adultização, tema central da entrevista com a psicóloga Simone Lemos

Diferente da autonomia saudável ou do protagonismo juvenil, a adultização ocorre quando crianças e adolescentes assumem responsabilidades, papéis ou comportamentos típicos da vida adulta sem maturidade emocional para lidar com eles. 

As consequências são profundas: dificuldades de atenção, queda no rendimento escolar e até lacunas na formação da identidade, que impactam diretamente o processo de aprendizagem. 

Em vez de se dedicarem às descobertas próprias de sua fase, esses jovens acabam sobrecarregados por exigências que roubam energia psíquica e emocional. 

Nesta conversa, Simone explica como identificar sinais de alerta e aponta caminhos para que família e escola ofereçam suporte sem cair em moralismos.

Adultização: entrevista com a psicóloga Simone Lemos

O que é adultização?

Clube do Português: O que é “adultização” de crianças e adolescentes e como ela se diferencia de autonomia saudável e protagonismo juvenil?

Simone Lemos: Antes de se definir o que é adultização, é importante ressaltar que cada estágio do desenvolvimento humano tem seus próprios desafios e estágios temporais. Para que a vida seja vivida de forma saudável, é necessário que cada fase seja concluída antes de avançar para a seguinte. 

Nesse sentido, a adultização acontece quando se antecipa a fase adulta em crianças ou adolescentes, em detrimento da fase atual. Ou seja, eles passam a desempenhar comportamentos, responsabilidades e papéis típicos da vida adulta antes de terem maturidade e discernimento suficientes para lidar tanto com as atividades em si quanto com as suas consequências. 

Esse processo pode ocorrer de forma direta, quando a criança ou adolescente assume responsabilidades como cuidar da casa, dos irmãos, de questões financeiras sérias ou até mesmo de um de seus genitores; ou indireta, quando é exposto a situações de caráter adulto de forma nociva, como contato frequente com drogas, álcool ou sexualização precoce.

A diferença para a autonomia saudável é fundamental. A autonomia é construída aos poucos, com atribuição de tarefas e responsabilidades adequadas à idade, sempre com acompanhamento e suporte de um adulto. Nesse processo, a criança não é deixada sozinha para lidar com as consequências. Pelo contrário, erros e dificuldades são mediados pelo adulto e transformados em aprendizado. Já na adultização, a criança ou adolescente fica sozinho diante de responsabilidades e consequências que não estão preparados para enfrentar. 

Por outro lado, o protagonismo juvenil se refere à participação ativa dos adolescentes e jovens em espaços de decisão que dizem respeito à sua vida, como o engajamento em representação de turma, envolvimento em centros acadêmicos, mobilização para projetos sociais, etc. 

Diferente da adultização, o protagonismo é voluntário e adequado ao estágio de desenvolvimento e ao contexto infantojuvenil. Ele valoriza a voz do jovem e promove engajamento social, sem transferir responsabilidades que não cabem à sua idade.

Impactos socioemocionais da adultização

Clube do Português: Que impactos a adultização traz para o desenvolvimento socioemocional e para a aprendizagem?

Simone Lemos: A adultização gera impactos profundos e sérios, porque a antecipação de uma fase ocorre sempre em detrimento da fase atual. Quando a infância ou a adolescência não são plenamente vividas, isso deixa lacunas no desenvolvimento que mais tarde se traduzem em imaturidade. 

O adulto que foi uma criança ou adolescente adultizado geralmente sente “faltas” internas, porque não teve a oportunidade de completar aquele ciclo de forma saudável, o que pode levar posteriormente a um adulto imaturo. 

Além disso, a adultização não se restringe apenas às responsabilidades e papéis antecipados. Muitas vezes envolve exposição precoce a drogas, álcool ou vida sexual, trazendo consequências sérias e desestabilizadoras. Lidar com isso provoca desregulação emocional, ansiedade elevada e, em alguns casos, pode desencadear quadros depressivos, justamente pela perda simbólica da vida infantil ou adolescente.

Outro ponto crítico é que, quando essa exposição vem de cuidadores ou referências próximas, a criança ou adolescente, ainda sem uma capacidade de discernimento apurada, passa a entender que esse contexto adulto tem valor. 

Ao mesmo tempo, o que ela vive na sua própria fase deixa de ser valorizado. Isso gera uma espécie de despersonalização, pois ela passa a adotar valores e comportamentos que não correspondem à sua idade, sem descobrir de fato quem é, o que gosta ou o que a define. 

Essa perda de identidade pode resultar em sensação de vazio, falta de sentido e dificuldade de construir uma personalidade sólida e estruturada. Com o tempo, isso aumenta a vulnerabilidade a transtornos de ansiedade e depressão.

Do ponto de vista da aprendizagem, por estarem envolvidas em atividades de impacto e consequências muito sérios para sua idade, todo esse cenário compromete a atenção, a motivação e a capacidade de se engajar no processo educativo, já que a energia psíquica fica consumida na tentativa de lidar com responsabilidades e dores que não caberiam a essa fase da vida.

O papel das redes sociais, da publicidade e da mídia

Clube do Português: Qual é o papel das redes sociais, da publicidade e da mídia nesse processo?

Simone Lemos: Tanto as redes sociais quanto a publicidade e a mídia têm como objetivo principal captar a atenção. Para isso, usam estratégias e gatilhos mentais que tornam seu conteúdo atrativo e muitas vezes apelativo. 

O problema é que crianças e adolescentes ainda não têm uma identidade estruturada nem maturidade emocional suficientes para filtrar esses estímulos, o que os torna muito mais vulneráveis à influência da mídia, da publicidade e, especialmente hoje em dia, dos influenciadores digitais. 

Com um simples celular, uma criança ou adolescente tem acesso a uma quantidade imensa de referências, muitas delas inapropriadas para a fase em que estão. 

O risco aumenta com os algoritmos das redes sociais: basta que a criança seja fisgada uma vez por um conteúdo inadequado para que passe a receber cada vez mais desse mesmo tipo de material, sem qualquer filtro

Se não houver acompanhamento de um adulto, a exposição se torna contínua, potencialmente prejudicial e que acaba de certa forma moldando uma personalidade artificialmente adultizada nessas crianças e adolescentes.

Além disso, essas plataformas trabalham o tempo todo com o desejo: o que está em jogo é induzir o público a querer algo. No caso de crianças e adolescentes, isso significa despertar desejos que não pertencem naturalmente à sua fase de vida, mas que se alinham à adultização: corpo sexualizado, consumo de produtos de adulto, estilos de vida precoces. 

Sem preparo para lidar com isso, eles acabam experimentando desorganização emocional e mental.

Como identificar a adultização?

Clube do Português: Quais são os sinais de alerta que a escola e as famílias podem observar sem cair em moralismos ou estereótipos?

Simone Lemos: Alguns sinais de alerta podem ser observados:

  • Quando a criança ou o adolescente fala frequentemente sobre drogas, álcool, sexualidade ou dinheiro de forma incompatível com a fase de vida.
  • Quando há uma sobrecarga emocional por um excesso de tarefas que estão além da sua idade (cuidar da casa, dos irmãos, de um dos pais).
  • Quando há falta de tempo ou de interesse em brincar ou socializar.
  • Quando ocorre uma preocupação excessiva com estética, corpo, consumo de produtos e estilo de vida ligados à vida adulta. 

É preciso também estarmos atentos a uma mudança brusca de comportamento, como irritabilidade constante, ansiedade, isolamento, queda no rendimento escolar ou em falas que evidenciem uma desvalorização da própria fase. 

O ponto fundamental não é julgar a criança ou adolescente, mas perceber se está ocorrendo um descompasso entre o que ele vive e o que seria esperado para sua fase de desenvolvimento e se isso está trazendo alguma espécie de confusão mental e sobrecarga emocional.

Papel das escolas e dos pais na prevenção

Clube do Português: O que a escola e os pais podem fazer na prática para prevenir e enfrentar a adultização?

Simone Lemos: O primeiro passo é ter consciência das características de cada fase do desenvolvimento e criar ambientes que valorizem essa etapa da vida. 

Isso significa oferecer atividades adequadas à idade e garantir que a criança ou adolescente se sinta livre para viver sua fase, acolhido, enxergado e valorizado como é. 

Outro ponto essencial é o cuidado com a exposição às redes sociais, publicidade e mídia. O acesso não deve ser totalmente proibido, mas precisa ser monitorado. É papel do adulto acompanhar o que está sendo consumido, orientar, discutir conteúdos e colocar limites claros quando necessário. 

Além disso, algumas ações práticas importantes são a promoção de vínculos afetivos sólidos, pois a criança que se sente segura e reconhecida em casa e na escola fica menos vulnerável a buscar validação em contextos adultos ou nocivos, dar responsabilidades proporcionais à idade para fortalecer o senso de autonomia e utilidade, oferecer modelos positivos de referência, e, de suma importância, abrir um espaço de diálogo com conversas francas que ajudem o jovem a desenvolver senso crítico sem recorrer ao moralismo. 

Em essência, prevenir a adultização não é isolar crianças e adolescentes do mundo, mas cuidar para que cada fase seja vivida com plenitude, oferecendo suporte, limites e referências saudáveis.