É passo a passo, degrau a degrau, que a criança em fase de alfabetização desenvolve a capacidade de escrever. Antes mesmo de chegar ao ponto de dominar a escrita, ela passa por várias etapas.

Em cada uma ela leva em conta as informações que recebe, mas também acrescenta, sempre e ao mesmo tempo, algo de pessoal nesse processo. Assim, esse processo obedece a uma linha evolutiva, que passa por quatro grandes níveis de escrita (ou hipóteses de escrita): pré-silábico, silábico, silábico alfabético e alfabético.

Neste artigo, vamos detalhar cada um desses níveis e mostrar quais são suas características. Vejamos!

Psicogênese da língua escrita

Os níveis de escrita foram desenvolvidos pela psicóloga Emília Ferreiro e pela psicopedagoga Ana Teberosky, influenciadas pelas teorias do pesquisador suíço Jean Piaget.

A definção dos níveis resultou de uma pesquisa sobre a psicogênse da língua escrita. Segundo o dicionário Oxford na internet, a psicogênese consiste na origem e desenvolvimento dos processos psicológicos ou mentais.

Isso significa que o termo se refere à análise do comportamento da mente ou da personalidade, diante de fatos, atividades e experiências psicológicas.

Quando falamos sobre a alfabetização, sabemos que o contato com a leitura e a escrita é um dos maiores marcos de aprendizagem para as crianças. Com base nisso, a psicogênese da língua surgiu para que o processo de aprender a ler e a escrever seja visto muito além do convencional. 

Em outras palavras, Ferreiro e Teberosky descobriram que havia uma falha de rendimento nas crianças em fase de alfabetização. Chegaram, então, à conclusão que, antes de os alunos desenvolverem e compreenderem o alfabeto, eles construíam diversas hipóteses sobre a escrita.

Conforme as autoras, as crianças são leitoras do seu mundo, antes mesmo de se alfabetizarem. Por essa razão, a aprendizagem da leitura e da escrita não pode ser feita de maneira mecânica. 

Nível pré-silábico: desenhos e rabiscos de letras

O nível pré-silábico é o primeiro dos quatro níveis de escrita. Nele a criança inicia seu processo de distinção entre desenho e escrita. Nesse período, ela ainda não conhece direito o alfabeto, mas já percebe que a escrita representa o que ela diz, mesmo que ainda se expresse por meio de rabiscos e desenhos.

Sem dominar o uso das letras, é comum que a criança use critérios quantitativos, variando a quantidade de letras para obter escritas diferentes, e qualitativos, a fim de variar o repertório das letras ou a posição delas, sem alterar a quantidade.

Em geral, a criança demonstra intenção de escrever por meio do traçado linear com formas diferentes e pode caracterizar uma palavra com a letra inicial. Ela também apresenta leitura global, individual e instável do que escreve, de modo que só ela sabe o que realmente escreveu. Nessa fase, contudo, a criança não estabelece vínculo entre fala e escrita e acaba usando letras do próprio nome ou números e letras na mesma palavra.

Confira abaixo dois exemplos (nível 2 e nível 1) de escrita pré-silábica:

Níveis de escrita: pré-silábico nível 2
Fonte: Fundação Cecierj
Níveis de escrita: pré-silábico nível 1
Fonte: Fundação Cecierj

Nível silábico: correspondência e organização

O nível seguinte é o silábico, que marca a construção de formas de diferenciação e organização da escrita. Nessa fase, a criança apreende noções sobre as letras, sobre como usá-las e como organizá-las para que possa dizer algo.

A escrita silábica é uma grande conquista pessoal da criança e não é transmitida pelo adulto, embora nessa fase ela observe muito mais os mais velhos, buscando ver como eles leem e escrevem e confrontando o que percebeu com o que já sabia. Assim, a criança passa a entender que a palavra escrita está relacionada com os aspectos sonoros da fala.

Neste ponto, ela vai buscando explicações sobre o sistema de representação e pode começar a separar oralmente as palavras e procurar uma correspondência em suas grafias.

Aqui, a criança admite haver correspondência entre letras e fala, mesmo que ela não esteja pronta para conectar as letras aos seus sons e que registre cada sílaba por meio de apenas uma letra, aleatória ou não. A criança tenta ainda fonetizar a escrita e dar valor sonoro para as letras, e passa a desconfiar de que a menor unidade de língua seja a sílaba.

Confira abaixo um exemplo de escrita silábica:

Níveis de escrita: silábico.
Fonte: Fundação Cecierj

Nível silábico-alfabético: relacionando sílabas e letras

Somente no nível seguinte, o silábico-alfabético, a criança passa a relacionar as sílabas faladas a mais de uma letra. Ela realiza as primeiras combinações de vogais e consoantes em uma mesma palavra, tentando combinar sons, e entende que a escrita representa o som da fala e já é capaz de realizar leituras menos complexas. É a fase inicial de fonetização da escrita.

Embora ainda não domine as exceções, percebe que sua escrita não é satisfatória. Nesse momento,  a criança tanto pode evoluir para acrescentar letras faltantes quanto se retrair e voltar a escrever com muitas letras aleatórias.

É um momento de transição, então não se surpreenda que a criança escreva alfabeticamente algumas sílabas enquanto permanece silábica para outras.

Confira abaixo um exemplo de escrita silábico-alfabética:

Níveis de escrita: nível silábico-alfabético.

Fonte: Fundação Cecierj
Fonte: Fundação Cecierj

Nível alfabético: reprodução dos fonemas

O último nível desta evolução é quando a criança consegue perceber o valor das letras e sílabas. É o chamado nível alfabético, no qual o estudante passa a reproduzir adequadamente todos os fonemas de uma palavra, percebe o modo de construção do código da escrita.

Só aí compreende que a sílaba pode ter uma, duas ou três letras, mas ainda mostra dificuldade na separação das palavras ao redigir um texto. E entende também que a escrita possui uma função social, mas ainda não se mostra nem léxica nem ortográfica.

Toda essa trajetória, que passa por cada um dos níveis de escrita, é fundamental para alcançar o pleno desenvolvimento educacional dos meninos e meninas.

Níveis de escrita: alfabético
Fonte: Fundação Cecierj

Teste de psicogênese: como identificar em qual nível de escrita a criança está?

Para identificar em qual nível conceitual de escrita uma criança se encontra, é possível aplicar o chamado teste de psicogênese. Ele é divido nas seguintes etapas:

1) Preparação

Selecione uma lista de palavras com diferentes níveis de complexidade e que represetem diferentes padrões silábicos e fonéticos. Esses vocábulos serão utilizados no teste.

É importante se certificar que o ambiente de aplicação do teste seja tranquilo e acolhedor para não influenciar negativamente o desempenho da criança.

2) Aplicação

Sem corrigir ou influenciar a criança, peça para que elas escreva algumas palavras específicas. O objetivo é entender como ela percebe a estrutura dos vocábulos.

Aplique também algumas atividades de leitura, nas quais a criança terá de ler alguns textos simples. Registre como ela decodifica as letras e sílabas.

Durante o teste, observe e anote se a criança usa letras de forma aletatória, se tenta formar sílabas com letras ou se já demonstra familiaridade com as regras ortográficas.

Nesse sentido, fique de olho não somente nas resposta corretas, mas também no tipo de erro e nas estratégias utilizadas pela criança para ler e escrever.

3) Análise

Com base nas características de cada nível de escrita, analise as respostas da criança. Para isso, você pode tomar por base o quadro-resumo que está no final deste artigo.

4) Feedback

Forneça um feedback construtivo e estruture um planejamento com atividades que ajudem a criança na transição para o próximos níveis.

Para te ajudar nessa tarefa, elencamos abaixo uma série de sugestões de atividades para cada um dos níveis de escrita.

Confira abaixo um exemplo de folha de teste de psicogênese:

Fonte: CEF Ponte Alta Gama-DF

Níveis de escrita: sugestões de atividades

Para cada nível de escrita, há atividades específicas que podem ser trabalhadas com as crianças. Confira abaixo algumas sugestões:

Nível pré-silábico

  • Leitura de imagens: estimule as crianças a narrarem as histórias de livros ilustrados a partir das imagens. Isso vai ajudá-las a desenvolver sua capacidade linguística e a ampliarem seu vocabulário.
  • Exploração de letras e sons: incentive as crianças a interagirem com as letras e ensine os sons de cada uma delas. Isso pode ser feito com letras magnéticas ou blocos de letras. Permita que elas formem combinações aleatórias para se familiarizarem com o alfabeto.
  • Desenho e narrativas: peça que as crianças “escrevam” uma história a partir de um desenho que fizerem. Elas podem usar traços ou garatujas para simular o texto. Essa atividade contribui para que elas entendam que a escrita carrega informações.

Nível silábico

  • Jogos de montar palavras: Use jogos que envolvam a mantogem de sílabas para montar vocábulos. Isso ajuda a criança a entender a estrutura silábica das palavras.
  • Criação de rótulos: Estimule as crianças a criarem rótulos para objetos da sala de aula. Com isso, elas vão aprendendo a relacionar coisas de seu ambiente com as letras e sílabas.
  • Bingo das sílabas: Crie cartelas com sílabas em vez de números e brinque com as crianças, pronunciando os som das sílabas para que elas identifiquem e marquem nas cartelas. Isso vai ajudá-las a criar uma memória auditiva de cada sílaba de forma lúdica.

Nível silábico-alfabético

  • Jogos de completar palavras: crie uma lista de palavras com algumas letras faltando e estimule as crianças a completarem. Isso contibrui para o reconhecimento dos sons das sílabas e de suas grafias.
  • Quebra-cabeça de vocábulos: cada peça do quebra-cabeça tem uma sílaba. As crianças precisam combiná-las para formar palavras que tenham significado real.
  • Leitura guiada: Faça leituras comportilhadas de textos e livros mais simples, destacando as palavras e discutindo as sílabas que as formam. Isso vai ajudar as crianças a compreender o uso dos vocábulos de forma contextualizada.

Nível alfabético

  • Escrita livre: estimule as crianças a produzirem pequenos textos, como cartas para a família ou um diário. Essa atividade vai ajudá-las a desenvolver indenpendência na escrita.
  • Atividades de correção ortográfica: ofereça às crianças uma lista de palavras com erros ortográficos e peça que elas identifiquem e corrijam os desvios. Isso vai contribuir para elas internalizem as regras ortográficas.
  • Ditados: leia algumas palavras e peça para que as crianças as escrevam em uma folha. Faça a correção de forma individualizada para não expor nenhum de seus estudantes. Esse tipo de dinâmica ajuda a desenvolver a memória ortográfica e a gravar a grafia correta dos vocábulos.

Resumo dos níveis de escrita

Para te ajudar a fixar esse conhecimento, criamos um quadro-resumo com as principais características de cada nível de escrita, assim como a idade em que normalmente eles se manifestam:

Nível de escritaCaracterísticasIdade
Pré-Silábico1) Uso de garatujas que imitam a escrita adulta, mas sem correspondência com sons específicos.
2) Representação de palavras com desenhos ou símbolos.
3) Falta de compreensão de que letras representam sons (falta de compreensão entre a relação de letra e fonema)
3 a 4 anos
Silábico1) Cada símbolo (letra) representa uma sílaba pronunciada, não necessariamente correspondendo ao som real.
2) Início do entendimento de que a escrita é uma representação da fala.
3) Uso limitado de letras, normalmente vogais ou consoantes que representam as sílabas mais sonoras da palavra.
5 a 6 anos
Silábico-Alfabético1) Combinação de elementos do nível silábico e alfabético, na qual sílabas são representadas corretamente enquanto outras são simplificadas.
2) A criança começa a compreender que as sílabas podem ser compostas por mais de uma letra.
3) Ainda há inconsistências na representação de letras nas sílabas.
6 a 7 anos
Alfabético 1) Representação correta de todas as sílabas com suas respectivas letras.
2) Compreensão de que cada fonema (som) pode ser representado por letras específicas.
3) Habilidade para escrever palavras de acordo com regras ortográficas básicas, mesmo que com alguns desvios.
7 anos
Quadro-resumo – níveis de escrita

Infográfico dos níveis de escrita

Para complementar, também criamos um infográfico com os conceitos-chaves repacionados a cada nível de escrita:

Mapa mental sobre os quatro níveis de escrita
Grave os conceitos-chaves de cada nível de escrita.

Referências bibliográficas

  • Ferreiro, E., & Teberosky, A. (1982). Psicogênese da Língua Escrita.
  • Tolchinsky, L.(2003). Aprendizagem da Escrita: Aspectos Psicológicos e Implicações Educacionais.
  • Gontijo, C. H., & Smolka, A. L. B.(2004). Aquisição da linguagem e da escrita: perspectivas psicológicas e implicações educacionais.

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Gostou do artigo? Então, vale a pena aprofundar seus conhecimentos com o Guia da Alfabetização.